terça-feira, 5 de outubro de 2010
Esquema quinário
28Chegado à outra margem, à região dos gadarenos, vieram ao seu encontro dois possessos, que habitavam nos sepulcros. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho. 29Vendo-o, disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» 30Ora, andava a pouca distância dali, a pastar, uma grande vara de porcos. 31E os demónios pediram-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos para a vara de porcos.» 32Disse-lhes Jesus: «Ide!» Então, eles, saindo, entraram nos porcos, que se despenharam por um precipício, no mar, e morreram nas águas.
33Os guardas fugiram e, indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os possessos. 34Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse daquela região.
1. Situação inicial: 28Chegado à outra margem, à região dos gadarenos
2. Nó: vieram ao seu encontro dois possessos, que habitavam nos sepulcros. Eram tão ferozes que ninguém podia passar por aquele caminho.
3. Acção transformadora: 29Vendo-o, disseram em alta voz: «Que tens a ver connosco, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes do tempo?» 30Ora, andava a pouca distância dali, a pastar, uma grande vara de porcos. 31E os demónios pediram-lhe: «Se nos expulsas, manda-nos para a vara de porcos.» 32Disse-lhes Jesus: «Ide!»
4. Desenlace: Então, eles, saindo, entraram nos porcos, que se despenharam por um precipício, no mar, e morreram nas águas.
5. Situação final: 33Os guardas fugiram e, indo à cidade, contaram tudo o que se tinha passado com os possessos. 34Toda a cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse daquela região.
A situação inicial situa o episódio geográfica e contextualmente. O nó apresenta o encontro de Jesus com dois possessos muito ferozes. A acção transformadora é a reacção de reconhecimento de Jesus como Filho de Deus, por parte dos possessos. O desenlace é a manifestação do poder de Jesus sobre os demónios. A situação final é a reacção dos guardas que assistiram ao acontecimento e a reacção de toda a cidade, mediante o testemunho deles.
Trata-se de uma intriga simultaneamente de resolução e de revelação. De resolução porque Jesus cura os possessos (embora ninguém lhe tenha pedido isso). A intriga de revelação é peculiar, porque são os demónios que reconhecem Jesus abertamente como Filho de Deus, embora O rejeitem, enquanto que toda a cidade não só não O reconhece como também O rejeita.
As personagens são:
Jesus, que pela sua centralidade, pelo seu poder é uma personagem redonda.
Os dois possessos são personagens redondas porque sofrem uma transformação profunda. São personagens adjuvantes.
A vara de porcos é obviamente uma personagem colectiva plana, por serem animais e, como tal, passivos. Não são nem adjuvantes nem opositores.
Os demónios são personagens redondas, pois apresentam uma grande densidade psicológica. Entram numa relação de tensão dramática com Jesus. No confronto com Ele e com a sua divindade, reiteram a sua posição de rejeição a Ele. São personagens opositoras.
Os guardas são personagens planas, porque são apresentados como simples mensageiros, ainda que tivessem ficado profundamente impressionados e não tivessem relatado os acontecimentos de um modo totalmente neutro e imparcial, como parece mais provável. Tanto podem ser opositores como adjuvantes. Isso não é dito com clareza no texto. O facto de a cidade em peso se ter oposto a Jesus não pode ser imputado aos mensageiros, porque a turba é composta por pessoas concretas, dotadas de liberdade e de responsabilidade individual, de modo que estas não podem remeter para outrem a responsabilidade pelos seus actos. Portanto, mesmo que os guardas sejam personagens opositoras, isso não justifica a reacção da multidão. Desta forma, a reacção da multidão não pode funcionar como um indicador da oposição ou ajuda dos guardas.
Toda a cidade é uma personagem redonda porque toma a iniciativa de sair ao encontro de Jesus, ou seja, de sair de si, mas pede-lhe que se afaste, isto é, que a deixe continuar fechada em si. Há um claro dinamismo e tensão dramática nesta posição, por mais impulsiva que possa ser. É uma personagem opositora.
001| SINÓPTICOS
Podemos ao ler os evangelhos que o ministério de Jesus desenvolve-se em três cenários, Galileia, a caminho de Jerusalém e em Jerusalém.
Mas em Lucas comparando com Mateus, coincidem em incluir uma série de tradições não presentes em Marcos e incluir um relato sobre a infância de Jesus, ainda que com um conteúdo diferente.
Um último apontamento, o Evangelho de Lucas é parte da obra mais extensa do Novo Testamento, a obra Lucana, que compreende em si o Evangelho e os Actos dos Apóstolos.
Depois duma breve introdução aos Sinópticos. O texto que se segue, tem como objectivo analisar o episódio da Tempestade acalmada dos Evangelhos Sinópticos (Mt 8,23-27; Mc 4,35-41; Lc 8,22-25).
O relato da Tempestade acalmada de Mateus é antecipado pelo tema do seguimento e condições para seguir Jesus (8, 18-22), ou seja “o abandono deste mundo, a ruptura com a vida anterior”[1] e seguir uma vida nova, vida que lhe é dada radicalmente em cada momento pelo Senhor “da pobreza, do abandono e da impotência. Não tem onde repousar a cabeça. Apesar de tudo e sem oferecer vantagem externa, Jesus chama.”[2]
Seguindo Jesus voltam os milagres. Os discípulos seguem Jesus no perigo, na tormenta do mar. O seguimento é perigoso, no seguimento os perigos são imensos, mas Jesus é ainda mais imenso. Porque Jesus vence o poder maligno (dificuldades). «Quem é este, a quem até o vento e o mar obedecem?» (Mt 8,27).
Mateus com este relato mostra que a realidade deste mundo se mostra hostil contra os seguidores de Cristo, e o mar alvoraçado é a imagem dessa ameaça. Mas este relato mostra que o poder que Messias dá aos seus seguidores é superior as dificuldades deste mundo, «Senhor, salva-nos, que perecemos!» (Mt 8,25). E com a sua força “começa o homem a ser livre”[3], porque Ele é o Senhor.
No relato da Tempestade acalmada, Marcos tem a intenção de demonstrar que “o anúncio do Reino de Deus não se reduz ao anúncio da boa nova, mas também que leva consigo os benefícios dessa proclamação”[4]. Por isso segundo o evangelista, Jesus é a salvação dos homens de todas as ameaças que podem alienar a sua vida.
O segundo aspecto deste relato de Marcos é que este relato é um relato dum crente que procura Deus fonte da sua fé e Jesus é essa fonte. E para Marcos como para os restantes evangelistas o factor essencial do benefício milagroso é a fé em Cristo. Outra característica de Marcos é provar a íntima relação deste evangelho acerca do Messias com a antiga tradição, como demonstra a transposição para o evangelho da imagem divina do criador em luta contra o mal (neste caso o elemento que personifica o mal é o mar), e que Cristo, Messias Divino não é um profeta e nem se comporta como os antigos profeta que pediam a Deus através das orações para que se dignara dominar os elementos adversos, o próprio Jesus, Filho de Deus é ele domina e controla os elementos da Terra.
A passagem de Lucas 8,22-25, situa-se na actividade de Jesus na Galileia (4,14-9,50) e mais precisamente numa subdivisão compreendida em 8,22-48.
Em 8,22 com uma breve introdução cronológico – topográfica, “Certo dia, Jesus subiu com os seus discípulos para um barco e disse-lhes: «Passemos à outra margem do lago.»”, acontece uma “mudança na matéria e narram-se quatro milagres, bem tratados entre si numa sequência geográfica – cronológica.”[5]. Para Lucas importa revelar e demonstrar as duas facetas de Jesus, profeta e salvador. Mas essas facetas têm origem nas obras. E é aqui que se situa a passagem da Tempestade acalmada. Nas obras ou milagres de Jesus, porque para Lucas o profeta-salvador conhecer-se-á pelas suas obras.
Os evangelistas acerca deste episódio (Tempestade aclamada) “mostram que a fé em Jesus tem a força para desbravar o mar”[6]. E segundo a tradição bíblica suponha-se que as forças demoníacas assentavam nos abismos (Sl 106,9), ou seja Cristo é o Senhor de tudo e tudo lhe obedece. E também está bem presente e é intenção dos autores dos evangelhos sinópticos que Jesus livra do caos todo aquele que n’Ele se refugia e recorre, «Senhor, salva-nos, que perecemos!» (Mt 8,25).
José Manuel Pasadas Figueira Pimenta
Omnes cum Petro ad Jesum per Mariam
Notas:
2. Ibidem, 55
3. Ibidem, 58
4. J. RUIZ, Evangelio según Marcos, EVD, Estella, 1988, 109
5. R. MONASTERIO – A. CARMONA, Evangelios sinópticos y Hechos de los Apóstoles, Estella, EVD, 2001, 296
6. A. SALAS, Evangelios Sinópticos, Ed. Paulinas, Madrid, 1993, 77
v Enquadramento do Espaço e Tempo do Micro-Relato de Mateus 28, 1-8:
-Espaço:
“1…Maria de Magdala e a outra Maria foram visitar o sepulcro.”; “2…o anjo do Senhor, descendo do Céu, aproximou-se e removeu a pedra, sentando-se sobre ela.”; “Vinde, vede o lugar onde jazia…”; 7“…‘Ele ressuscitou dos mortos e vai à vossa frente para a Galileia.” “ 8Afastando-se rapidamente do sepulcro,” cheias de temor e de grande alegria, “as mulheres correram a dar a notícia aos discípulos.”
O Sentido Político: Apenas com os dados do micro-relato, não somos capazes de encontrar o sentido político do espaço. Porem este oferece-nos a informação da presença de soldados que guardava o sepulcro. Certamente, soldados romanos, visto ser Pilatos o governador romano da Judéia.
Descrição Topográfica: A Maria de Magdala e a outra Maria dirigiam-se para o sepulcro, e foi onde lhes apareceu o anjo removeu a pedra e sentou-se sobre ela (cf. v.1). Os sepulcros eram cavados na rocha, como tal a topografia do espaço seria rochoso afastado da população.
Arquitectónico: A acção do encontro das mulheres com anjo dá-se no espaço exterior, contudo o anjo convida as mulheres a ir verificar que Jesus já não se encontra dentro do sepulcro, porém não há informação de que elas tenham entrado dentro do sepulcro. (cf. v.6)
-Linhas: Quanto às linhas podemos identificar a horizontal, que diz respeito ao anjo que desce dos Céu, e dirigiu-se às mulheres do alto da pedra (cf. v. 2 e 3).
Espaço Sémico: Podemos constatar de apesar de ser um espaço aberto e do anjo se dirigir às mulheres do alto da pedra, há um movimento de proximidade, o anjo que desce do Céu para lhe dar a notícia de ressurreição de Jesus, utilizando o verbo “Vinde”, que subentende um movimento de aproximação. Como que um “compadeceimento” pelo sofrimento dos que sofriam com a morte de Cristo. Apesar de o acontecimento as ter deixado com medo, a notícia foi motivo de alegria que as faz correr a contar aos discípulos.
Levantamento dos movimentos das personagens no Espaço | ||
Maria de Magdala e a outra Maria “1…foram visitar…” “6…Vinde, vede o lugar onde jazia7e ide depressa dizer aos seus discípulos:” “8Afastando-se rapidamente do sepulcro,… correram a dar a notícia…” | Anjo “2…descendo do Céu, aproximou-se…” | Soldados “4…puseram-se a tremer e ficaram como mortos.” |
Para além do movimento das personagens intrevenientes neste micro-relato ainda é nos fornecido o mvimento espacial de Jesus a de que este se dirige à frente deles e que os espera na Galileia, onde tudo começou (cf. v.7).
-Tempo:
“ 1Terminado o sábado, ao romper do primeiro dia da semana.”
- O tempo deste micro-relato, como podemos constatar no excerto em cima citado, tem um valor quer Factual/Mortal, quer Monumental/Simbólico. O sentido Monumental/Simbólico das mulheres irem ao sepulcro ao romper da aurora, no início do 1º dia da semana, dá um sentido simbólico de um novo começo, de uma novidade monumental que irá fazer diferença. Este romper do novo dia, da nova semana é coincidente com romper ou amanhecer da fé daquelas mulheres. Considero esta perícope de Mateus como uma cena, ou seja, o tempo da história contada é o mesmo que o tempo do relato. Este é um episódio narrativo singulativo, ou seja este aconteceu uma vez e só é contado uma vez no macro-relato.
domingo, 3 de outubro de 2010
Análise de Mc 14, 1 a Mc 16, 20
1. Escolher uma sequência narrativa e justificar.
A sequência narrativa que escolhi foi Mc 14, 1 a Mc 16, 20. Estamos perante uma sequência narrativa, porque esta sequência é formada por um conjunto de micro-relatos que têm como tema a Paixão e a Ressurreição de Jesus.
1.1. Identificação dos micro-relatos que constituem esta sequência:
• O primeiro micro-relato: Mc 14, 1-9
Tempo: «A Páscoa e os ázimos seriam dois dias depois»
Espaço: «Em Betânia»; «à mesa em casa de Simão»
Personagens: «os chefes dos sacerdotes»; «os escribas»; «Jesus»; «Simão, o leproso»; «uma mulher»
Mudança de tema: Conspiração contra Jesus; A unção
• O segundo micro-relato: Mc 14, 12-16
Tempo: «No primeiro dia dos ázimos»
Espaço: «fora da cidade»
Personagens: «Jesus»; «os seus discípulos»
Mudança de tema: A preparação para ceia Pascal
• O terceiro micro-relato: Mc 14, 17-25
Tempo: «ao cair da tarde»
Espaço: «ele foi lá com os Doze» (à cidade)
Personagens: «Jesus» e «os Doze»
Mudança de tema: Anúncio da traição de Judas e Instituição da Eucaristia
• O quarto micro-relato: Mc 14, 26-72
Tempo: «Depois de terem cantado o hino»
Espaço: «Monte das Oliveiras»
Personagens: «Jesus»; «Pedro» e os outros discípulos
Mudança de tema: Predição da negação de Pedro; no Getsêmani; a prisão de Jesus; Jesus perante o Sinédrio; negação de Pedro.
• O quinto micro-relato: Mc 15, 1-20
Tempo: «logo de manhã»
Espaço: «lavaram-no e entregaram-no a Pilatos»
Personagens: «Jesus»; «os chefes dos Sacerdotes»; «os anciãos e os escribas e todo o Sinédrio»; «Pilatos»; «Barrabás»; «a multidão» (povo); «os soldados».
Mudança de tema: Jesus perante Pilatos; A coroação de espinhos
• O sexto micro-relato: Mc 15, 21-41
Tempo: «terceira hora»; «hora sexta»; «hora nona»
Espaço: «lugar chamado Gólgata»
Personagens: «Simão de Cirene»; «Jesus»; «dois ladrões»;
Mudança de tema: O caminho da Cruz; a crucifixão; Jesus é escarnecido e injuriado na cruz;
• O sétimo micro-relato: Mc 15, 42-47
Tempo: «E, já chegada a tarde, sendo dia da Preparação, isto é, a véspera de sábado»
Espaço: «Ousando entrar onde estava Pilatos»
Personagens: «José de Arimateia»; «Pilatos»; «centurião»; «Maria de Magdala e Maria, Mãe de Joset»
Mudança de tema: O sepultamento
• O oitavo micro-relato: Mc 16, 1-20
Tempo: «Passado o sábado» «na madrugada do primeiro dia da semana»
Espaço: «túmulo»
Personagens: «Maria de Magdala e Maria, mãe de Tiago, e Salomé»; «um jovem…»; «os onze»; «o Senhor Jesus»; «Deus»
Mudança de tema: Túmulo vazio; Ressurreição e Aparições de Jesus Ressuscitado
2. Escolher um episódio e aplicar o sistema quinário e justificar.
O micro-relato que escolhi foi: Mc 14, 17-25, que aborda sobre o “Anúncio da traição de Judas”.
Situação inicial: «Ao cair da tarde, ele foi para lá com os Doze.» (Jesus vai com os Doze para a cidade para celebrar a ceia pascal, onde anteriormente tinha mandado dois discípulos à sua frente)
Nó: E quando estavam à mesa, comendo, Jesus disse: “Em verdade vos digo: um de vós que come comigo há de me entregar”. (Jesus revela que um deles o iria trair)
Acção transformadora: «Começaram a ficar tristes e a dizer-lhe, um após outro: “acaso sou eu?”» (Os discípulos ficam tristes e preocupados em saber quem seria)
Desenlace: «Ele, porém, disse-lhes: “Um dos Doze, que põe a mão no mesmo prato comigo. Porque, na verdade o Filho do Homem vai, conforme está escrito a seu respeito…”». (Jesus não revela qual é o discípulo, tal como eles o desejavam, mas pelas suas palavras diz que isto terá que acontecer)
Situação final: «Mas, ai daquele homem por quem o Filho do Homem for entregue! Melhor seria para esse homem não ter nascido!»
3. Classificar a intriga: se é de resolução ou de revelação.
A intriga neste micro-relato é de revelação. Jesus revela aos seus discípulos que um deles o irá trair.
4. Classificação das personagens: se são planas ou redondas; opositoras ou adjuvantes.
Os doze: considero personagens redondas, porque anteriormente estavam preocupados com a preparação para a Páscoa e ficam tristes, preocupados e a questionar-se sobre quem seria que iria entregar Jesus.
Os doze são personagens adjuvantes, porque a sua atitude é de tentar descobrir como resolver a situação procurando saber quem seria o traidor.
Jesus: é uma personagem redonda, porque perante os preparativos para a Páscoa parece que está concentrado noutros assuntos com os quais interroga dos discípulos.
Jesus é também uma personagem adjuvante, isto porque, procura transmitir aos discípulos os acontecimentos que iriam acontecer para eles assim estarem preparados.
Leitura Sinóptica do chamamento de Levi (Mateus)
Após ter feito a análise de uma sequência no segundo capítulo de Marcos, tive a curiosidade de procurar nos outros sinópticos possíveis correspondências ao episódio da vocação de Mateus (Mc 2, 14). Encontrei-as e notei que tinham uma aproximação tremenda, quase uma cópia. Como já havia trabalhado o texto do Marcos, aplicando o esquema quinário, coloquei os outros dois textos em paralelo. Resultou nisto:
Mc 2,14 | Lc 5, 27-28 | Mt 9,9 |
E, passando, viu Levi, filho de Alfeu, | E, depois disto, saiu, e viu um publicano, chamado Levi | E Jesus, passando adiante dali, viu um homem, chamado Mateus |
sentado no posto de cobrança | sentado no posto de cobrança | sentado no posto de cobrança |
disse-lhe: Segue-me | disse-lhe: Segue-me | e disse-lhe: Segue-me |
E, levantando-se | E ele, deixando tudo levantou-se | E ele, levantando-se |
seguiu-o | seguiu-o | seguiu-o |
Estando colocado dentro de uma grelha percepcionamos uma semelhança ainda maior. Mas tal como noutros ofícios, os pormenores contam muito. E, ao distraído leitor pode-lhe escapar informação preciosa. Daí que me atrevi a espreitar o original grego.
Original Grego | ||
Mc 2,14 | Lc 5, 27-28 | Mt 9,9 |
Kai. para,gwn ei=den Leui.n to.n tou/ ~Alfai,ou | Kai. meta. tau/ta evxh/lqen( kai. evqea,sato telw,nhn( ovno,mati Leui | Kai. para,gwn o` VIhsou/j evkei/qen ei=den a;nqrwpon lego,menon Matqai/on, |
kaqh,menon evpi. to. telw,nion( | kaqh,menon evpi. to. telw,nion( | kaqh,menon evpi. to. telw,nion( |
kai. le,gei auvtw/|\ avkolou,qei moiÅ | kai. ei=pen auvtw/|( VAkolou,qei moiÅ | kai. le,gei auvtw/|( VAkolou,qei moiÅ |
kai. avnasta.j | Kai. katalipw.n a[panta( avnasta.j | Kai. avnasta.j |
hvkolou,qhsen auvtw/|Å | hvkolou,qhsen auvtw/|Å | hvkolou,qhsen auvtw/|Å |
Ainda antes de irmos ao texto, seria bom vermos qual o contexto em que se inserem estas narrativas. É o mesmo entre ambos. O episódio que s antecede é a cura do paralítico, e o que se segue é a «questão do jejum». Temos, então, uma base comum, que tem uma intensão. Mas para já não é este o motivo da nossa atenção. Peguemos no texto.
A primeira linha da tabela apresenta a informação inicial, e é a parte menos «copiada». O acontecimento é o mesmo, mas cada escritor sagrado o inicia à sua maneira. Não temos dúvida que Jesus ia a passar, todos o referem. Mas a informação a seguir é diferente nos três: para Marcos, Levi é filho de Alfeu, uma referência que o destaca como sendo uma pessoa conhecida, por Jesus e/ou pelo povo; em Lucas, o homem que Jesus vê é Levi, um publicano; e em Mateus, é um homem, de nome Mateus. Cada evangelista ressalta apenas um aspecto à pessoa que Jesus viu, e não deixam essa personagem sem nome: Levi ou Mateus. No texto de Lucas, os verbos utilizados (evxe,rcomai, qea,omai, o;noma) são diferentes dos de Marcos e Mateus (o`ra,w,), que, ao contrários, são os mesmos.
O restante episódio é ipsis verbis, exceptuando a aplicação do auristo no verbo le,gw, quando Jesus lança o convite. Pois, em Marcos e Mateus o verbo aparece no presente. E, também, a referência de Lucas ao «deixando tudo» (katalipw.n a[panta) que não aparece nos outros. O que nos evidencia ser um reforço da atitude de total desprendimento à situação anterior. Por si só, o levantar-se e seguir já é entendido com mudança radical, mas Lucas faz questão de realçar mais.
Este é um dos exemplos mais claros da escrita sinóptica de Mateus, Marcos e Lucas. É um episódio que encontra nos três evangelistas entre a «cura do paralítico» e a «questão do jejum». Usa praticamente as mesmas palavras e só sabendo os pormenores que elencamos é que é possível dizer a qual dos evangelistas pertence.
sábado, 2 de outubro de 2010
Análise Narrativa 2
Em primeiro lugar importa ter em consideração que o texto bíblico quando foi “posto” por escrito não estava organizado em capítulos nem em versículos, tal organização é produto de autores do século XIII e XVI (Cfr., MARGUERRAT, Daniel, BOURQUIN, YVAN, Cómo leer los relatos bíblicos, Ed. Sal Terrae, p.53), mas que a narração bíblica, no caso evangélica, é composta por um conjunto de episódios longos ou breves aos quais se dá o nome de micro-relatos, sendo que o conjunto destes micro-relatos compõe uma sequência narrativa que faz parte com os micro-relatos do macro-relato que é o Evangelho em si.
Ora, para a análise e consideração do que estrutura uma sequência narrativa importa ter presente que uma sequência narrativa caracteriza-se por unir entre si um conjunto de micro-relatos debaixo de um tema comum ou de uma personagem principal (Cfr., Cómo leer los relatos bíblicos, p.61). Assim temos sequências temáticas (e.g. as pragas do Egipto Ex 12,1-15-20) e sequências com base no personagem principal (e.g. a história de Débora no livro dos Juízes em 4,1-5,31). Mas este duplo aspecto de uma sequência não tem de ser exclusivo, pois podemos ter na mesma sequência o mesmo tema e a mesma personagem principal.
Partindo então deste pressuposto pensamos que em Mt 21,23-22-14 estamos perante uma sequência narrativa temática com um personagem principal. Se considerarmos os vários aspectos por meio dos quais uma sequência temática pode ser captada (Cfr., Cómo leer los relatos bíblicos, pp.62-63) a começar pela delimitação do conjunto de micro-relatos que a compõem, que por sua vez são analisados segundo o método próprio para a delimitação de um micto-relato – situação inicial, nó, acção transformadora, desenlace e situação final (Cfr., Cómo leer los relatos bíblicos, pp.72). Acerca da sequência em questão constatamos em primeiro lugar que esta sequência é composta de 9 micro-relatos, a saber: 1º) 21, 23-27; 2º) 21, 28-32; 3º) 21, 33-41; 4º) 21, 42-46; 5º) 22, 1-15; 6º) 22, 16-22; 7º) 22, 23-33; 8º) 22, 34-46; 9º) 23, 1-39. Em seguida constatamos também que a personagem principal e redonda é Jesus que entra no Templo. Ora, aproximam-se d'Ele os príncipes dos sacerdotes e os anciãos, aqui como personagens secundárias e opositoras, interrogam-n’O sobre a sua autoridade para ensinar e Jesus responde-lhes por meio de um conjunto de parábolas e citando a Escritura como é próprio de São Mateus (Mt 21, 23-22-14). Existem ainda ao longo da sequência outras personagens secundárias opositoras - os fariseus - aos quais Jesus se dirige. Mas encontramos os discípulos, personagens adjuvantes, e a multidão à qual Jesus se dirige. Percebemos ainda que nesta sequência narrativa o lugar, o tempo, o tema bem como as personagens, principal e as secundárias, nestes capítulos e versículos não mudam. Assim temos que esta sequência decorre no mesmo espaço – Templo – e no mesmo tempo que ao que parece é de manhã, segundo o versículo 18 do capítulo 21, pois o Evangelho diz-nos que o depois de ter chegado a Jerusalém, ter ido ao Templo e após ter passado a noite em Betânia (Mt 21, 1), na manhã do dia seguinte secou uma figueira porque esta não tinha fruto (Mt 21, 18-22) e depois, aqui está o nosso texto, foi para o Templo do qual só sairá no capítulo 24 versículo 1.
Relativamente ao tema desta sequência narrativa, que podemos considerar linear, parece-nos que este diz respeito à rejeição, por parte dos príncipes dos sacerdotes, dos anciãos e dos fariseus, do Reino de Deus do qual Jesus é o anunciador enviado pelo Pai, sendo ao mesmo tempo o Messias (o Cristo) anunciado pelo Baptista mas que será rejeitado por eles. No entanto é aceite pelos discípulos, pecadores e publicanos, e por muitos dos que compõem a multidão, por isso tomarão parte no Reino. Ora, este tema é bem reiterado e está presente a seu modo em cada um dos micro-relatos presentes nesta sequência narrativa quer quando se questiona a autoridade de Jesus para ensinar sobre o Reino quer quando Jesus responde por meio de parábolas falando de Si e do que Lhe vai acontecer, ou seja, como os grandes de Israel os rejeitam e matam por anunciar o Reino de Deus do qual Ele é a pedra angular, mas resscuscitando dos mortos os que crêem n’Ele tomarão parte no com Ele no Reinado de Deus.
Outro momento desta análise da sequência será a consideração de um micro-relato segundo o esquema quinário proposto pela narratologia bíblica para os textos da Escritura. Destacaremos ainda nesta análise o enquadramento espácio-temporal do micro-relato que focaremos. Esta análise é feita em:
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Breve Resumo de História – Evangelhos Sinópticos (retirado da net):
- Os evangelhos Sinópticos compreendem os livros de Mateus, Marcos e Lucas, sendo que Marcos é o livro que nos parece mais antigo. Os evangelhos aparentam e são considerados pelos leitores leigos como livros fáceis e agradáveis de se ler, mas ao estuda-los de forma mais profunda, com uma leitura académica, notamos sua complexidade. O autor coloca duas fidelidades a serem seguidas no estudo dos sinópticos: a primeira, é a dimensão religiosa e popular; e a segunda, é a crítica da cultura moderna. Sequencialmente veremos a origem e a natureza dos evangelhos, depois o nascimento das tradições e sua transmissão nas comunidades primitivas, seguindo o método de Aristóteles, que é estudar as coisas no processo de seu desenvolvimento, a partir do começo.
Os quatro evangelhos canónicos são composições anónimas e foram escritas entre os anos 65-90 d.C., foram reunidas aproximadamente em 125 d.C. Por evangelho entende-se “bom anúncio”, do grego eu aggelô, e é evidente que designa pregação oral e não textos escritos. Resume-se numa confissão de fé os que considerava como testemunhas da salvação de Deus para a humanidade através de Jesus, que se realiza a autêntica boa notícia.
Na origem dos evangelhos vemos três divisões necessárias: grupo pré-pascal, a comunidade pós-pascal e a redacção dos evangelhos.
Comecemos pela comunidade pré-pascal. São exactamente os discípulos que desde o início estavam ao redor de Jesus e eram privilegiados com seus ensinamentos. Jesus anunciava o Reino de Deus em Cafarnaum, às margens do lago da Galiléia e tinha um carácter itinerante. O contexto em que Jesus vivia tinha como sistema de ensino a aprendizagem por memorização, as três instituições-chave eram a casa paternal, a sinagoga e a escola elementar, pois só mais tarde, ano 70, é que as escolas rabínicas viriam trazer novos conceitos de literatura e ensino. Os evangelhos são marcados de tal forma que pudessem ser facilmente decorados, Jesus usa linguagem poética, usa imagens, metáforas, simbolismos, expressões enigmáticas e penetrantes, tudo para que se pudesse memorizar melhor seus ensinamentos. Embora a mensagem de Jesus esteja tão vinculada à sua pessoa, a importância desta é tão singular, que era impossível transmitir os ditos de Jesus sem fazer referências à sua vida e à sua pessoa.
A comunidade pós-pascal já tinha uma visão diferente, era o mesmo grupo, só que já contavam com uma fé mais aprimorada, pois tiveram um encontro com o Jesus ressuscitado, e já se preocupavam não só em repetir as palavras do mestre, mas também de interpretá-las, mantendo a fiel tradição conforme escutaram/viveram com Jesus no passado. Agora tinham a consciência que Jesus não era um mero mestre, mas sim o Senhor ressuscitado, pois tiveram um contato todo especial quando estiveram com Jesus, “ a começar do batismo de João até o dia em que de dentre nós foi arrebatado” (At 1:21-22).
Os discípulos eram judeus, faziam suas interpretações com mentalidade judaica, pois lhes era fundamental apresentar Jesus à luz da escritura, como seu cumprimento, então era obrigados a reler a palavra de Deus e desenvolvê-la. Não é exagerado afirmar que a referência ao A.T. é um momento presente em todos os textos dos evangelhos. Portanto um passo importantíssimo na interpretação de cada texto dos evangelhos é perguntar-se pelo seu conteúdo veterotestamentário. Depois da Páscoa se torna muito mas clara a importância da pessoa de Jesus e a inseparabilidade entre a sua doutrina e a sua pessoa, sendo a paixão destacada tendo um caráter unitário, sendo talvez o primeiro relato a ser escrito. O anúncio do evangelho se dá primeiro aos judeus e somente depois, aos gentios, quer dizer, a pregação missionária foi uma outra atividade da comunidade. A fé pós-pascal reconhece no ressuscitado o crucificado, e não outro; e exige fidelidade nas suas palavras e obras. Neste período a tradição oral não era transmitida unicamente, não podemos negar que havia também textos escritos, e eles conviveram e se afectaram durante muito tempo.
A redacção dos evangelhos sinópticos; os apóstolos, após a ascensão do Senhor, transmitiram aos ouvintes aquilo que ele dissera e fizera, os autores sagrados escreveram os quatro evangelhos, escolhendo certas coisas das muitas transmitidas ou oralmente ou já por escrito, pois os escreveram, seja com fundamento na própria memória e recordações seja baseados no testemunho daqueles ‘que desde o começo foram testemunhas oculares e ministros da palavra’. O trabalho dos evangelistas vem descrito como:
- seleccionar os dados da tradição oral ou escrita;
- realizar sínteses;
- adaptar a tradição recebida às situações das diversas igrejas;
- conservar o estilo da proclamação.
Falaremos agora da natureza dos evangelhos sinóticos tentando mostrar a finalidade
destas obras. Os evangelhos são textos narrativos que apresentam o curso da vida de Jesus e de seu ensinamento. Tanto no N.T, como no A.T. há textos argumentativos, narrativos, poéticos etc., porém, o mais específico da fé bíblica se expressa de forma narrativa. A característica da narração é transmitir acontecimentos e experiências histéricas. Um elemento literário fundamental da narração é a trama ou intriga, vemos essas características nos evangelhos, ex. a paixão. Qual a origem da trama evangélica? Vemos que é uma sequência que se amplia até chegar no conceito paixão-cruz-ressurreição. A narratividade dos evangelhos sugere duas reflexões; primeiro trata-se de obras unitárias, coerentes e bem trabalhadas, não de uma mera recompilação de fragmentos preexistentes; segundo temos que ter cautela pois a consideração teológica dos evangelhos facilmente menosprezava ou desconhecia o aspecto narrativo e isso por várias razões.
Os evangelhos são narrações teológicas, porque descobrem na vida de Jesus a atuação de Deus e o cumprimento do A.T., os evangelhos são textos religiosos, partem da fé no Deus da Bíblia e em Jesus Cristo. Nos evangelhos hoje quem fala é o Senhor ressuscitado à comunidade, através da vida e das palavras de Jesus do passado, que terminou na cruz, a luz da Páscoa ilumina todo o relato evangélico, mas somente o caminho que desemboca na cruz – narração de Jesus - permite chegar à Páscoa e compreender o ressuscitado. Os evangelhos foram escritos aos pés da cruz e para não esquecê-la. Jesus é o Senhor ressuscitado e glorificado, mas o Senhor ressuscitado não é senão o Jesus crucificado. É evidente que os evangelhos não são informações históricas, nem crônicas do passado. Nem biografias no sentido moderno: não descrevem o carácter do personagem, nem a sua evolução, nem todos os detalhes de sua vida a partir de seus antecedentes familiares e de sua infância. É impossível escrever uma vida de Jesus com rigor e exaustividade que pede nossa modernidade. Mas é preciso acrescentar que de nenhum judeu contemporâneo temos tantas informações fidedignas como de Jesus, sobre sua mensagem, suas atitudes, sua relação com o judaísmo etc., que se pode, afirmar com razoável segurança.
A finalidade dos evangelhos, três pontos importantes:
- O despertar e o fortalecimento da fé nas comunidades cristãs; o aprofundamento na fé a sua coerência vital é um processo permanente. E os textos evangélicos pretendem promover esse processo de conversão de cada cristãos e das comunidades.
- Fazer da vida de Jesus o paradigma para compreender as suas palavras; a característica dos evangelhos é o seu carácter narrativo, capaz de desenvolver toda a vida de Jesus até o seu final escandaloso. Os evangelhos pretendem conduzir-nos até a cruz (essa é a trama) e dizer-nos que é através da cruz e da história que necessariamente implica como se conhece o filho de Deus.
- A visão equilibrada e sintética, literária e teologicamente, tanto da pessoa e da obra de Jesus, como do vínculo dos discípulos com ele; os relatos evangélicos caracterizam-se pela incorporação das diversas tradições, integrando-as numa visão unitária e equilibrada, que evite as unilateralidade e inclusive os erros a que está sujeita cada tradição tomada isoladamente.
A pluralidade de evangelhos; são assim chamados sinópticos, palavra que etimologicamente quer dizer: “ com uma olhada” (syn opsis), porque, efectivamente, os seus textos são de tal natureza que podem ser colocados em colunas paralelas, de modo que se perceba com rapidez e claridade as suas semelhanças e diferenças. Sem dúvida existe algum tipo de relação literária, mediata ou imediata, entre os sinóticos. Isto quer dizer que na igreja primitiva as narrações sobre Jesus eram rescritas. Havia um esforço continuo de fidelidade e atualização. Não lhes bastava receber passivamente, se esforçavam para completar e reelaborar a partir de sua própria experiência. A igreja sempre aceitou a pluralidade de evangelhos e se opôs aos intentos de ficar com um só ou realizar um relato, síntese de todos eles. Pela experiência sabemos que é muito melhor Ter quatro versões de um acontecimento do que uma só. Cada evangelista focaliza Jesus e sua mensagem a partir de uma perspectiva própria e em função das necessidades de sua comunidade. O “evangelho tetraforme” nos fala da riqueza da pluralidade e, por sua vez, da abertura à comunhão e à unidade, por isso todas estão abertas, em principio, a outras versões e interpretações.
A leitura vertical e horizontal dos evangelhos; da natureza dos evangelhos sinóticos seguem-se dois tipos de leitura, que não são antagónicos, mas complementares:
- a leitura horizontal ou comparada dos sinópticos; a comparação deve ser muito cuidadosa e recair sobre o texto e o contexto;
- a leitura vertical ou seguida de cada evangelho; consiste na leitura de cada evangelho como uma unidade narrativa, seguindo as diversas linhas de sua trama, do começo até o final. A leitura contínua exige situar cada pericope em seu contexto, relacionando-se com o que antecede e com o que segue.
Os três níveis dos textos dos evangelhos sinópticos; na introdução afirmamos que, além de sua aparente simplicidade e popularidade, os textos sinópticos são os mais complexos quando se aborda seu estudo rigoroso, precisamente pela longa evolução, que aconteceu antes de sua redacção definitiva. Distinguiremos os três níveis:
- Nível redacional; o que significa este texto na situação actual que apresenta a obra completa, atendendo ao contexto, situando-o no conjunto da trama?
- Nível tradicional; muitos factores contribuíram à evolução de uma tradição, mas é importante também ler, na história de um tradição evangélica, a experiência de fé que se foi acumulando, seguir o itinerário de fé que fora transmitido e reelaborando cada pericope.
- Referencia histórica; os textos não terminam em si mesmos, mas falam de personagens reais e de acontecimentos históricos. Ma a qualidade desta referencia histórica não é a mesma em todos os textos. Nem todas as portas se abrem com a mesma chave. Igualmente é preciso analisar cuidadosamente cada texto para descobrir a índole de sua historicidade.
O estudo completo de cada perícope exige a passagem pelos três níveis mencionados. Cada perícope tem o seu próprio sentido. Evidentemente, a utilização teológica de uma perícope isolada sempre acaba situando-a no contexto vital da morte e ressurreição de Jesus cristo, que é o ponto de partida da fé.
Autores consultados:
- Rafael Aguirre Monasterio
- Antônio Rodríguez Carmona
- Leif E. Vaage