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terça-feira, 26 de outubro de 2010

Esquema da Tipificação de cenas no Evangelho segundo Marcos

Tomando o Evangelho segundo São Marcos, percebemos que apesar de se socorrer de fontes orais ou escritas, Marcos estabeleceu um esquema de narração para cristaliza-los na sua obra. Dentro do cariz pragmático e sucinto com que Marcos pauta o seu texto, percebemos que tinha em mente o objectivo de tornar mentalmente associáveis passagens sobre milagres e exorcismos. De certo modo, também pretendia permitir que estes trechos fossem decorados a julgar pela visível aplicação de um esquema mnemónico.

Portanto, a sua tipificação que aplica aos milagres baseava-se geralmente em seis partes. Se omitia algum desses elementos talvez fosse pela aplicação da estratégia de economia de narração que marca a sua obra.

O trecho escolhido para aplicarmos e apresentarmos este esquema de seis partes foi Mc 9,14-29:

14Ia ter com os seus discípulos, quando viu em torno deles uma grande multidão e uns doutores da Lei a discutirem com eles. 15Assim que viu Jesus, toda a multidão ficou surpreendida e acorreu a saudá-lo. 16Ele perguntou: «Que estais a discutir uns com os outros?» 17Alguém de entre a multidão disse-lhe: «Mestre, trouxe-te o meu filho que tem um espírito mudo. 18Quando se apodera dele, atira-o ao chão, e ele põe-se a espumar, a ranger os dentes e fica rígido. Pedi aos teus discípulos que o expulsassem, mas eles não conseguiram.» 19Disse Jesus: «Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-mo cá.» 20E levaram-lho.

Ao ver Jesus, logo o espírito sacudiu violentamente o jovem, e este, caindo por terra, começou a estrebuchar, deitando espuma pela boca. 21Jesus perguntou ao pai: «Há quanto tempo lhe sucede isto?» Respondeu: «Desde a infância; 22e muitas vezes o tem lançado ao fogo e à água, para o matar. Mas, se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós.»

23«Se podes...! Tudo é possível a quem crê», disse-lhe Jesus.

24Imediatamente o pai do jovem disse em altos brados: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»

25Vendo, Jesus, que acorria muita gente, ameaçou o espírito maligno, dizendo: «Espírito mudo e surdo, ordeno-te: sai do jovem e não voltes a entrar nele.» 26Dando um grande grito e sacudindo-o violentamente, saiu. O jovem ficou como morto, a ponto de a maioria dizer que tinha morrido. 27Mas, tomando-o pela mão, Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé.

28Quando Jesus entrou em casa, os discípulos perguntaram-lhe em particular: «Porque é que nós não pudemos expulsá-lo?» 29Respondeu: «Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à força de oração.»


Primeiramente, surge-nos a aproximação do doente até Jesus, que neste texto é feito em dois tempos: Jesus aproxima-se da multidão à volta dos discípulos, e a multidão desloca a atenção para Ele, juntamente com a mãe do doente que lhe explica aquela reunião.

14Ia ter com os seus discípulos, quando viu em torno deles uma grande multidão e uns doutores da Lei a discutirem com eles. 15Assim que viu Jesus, toda a multidão ficou surpreendida e acorreu a saudá-lo. 16Ele perguntou: «Que estais a discutir uns com os outros?» 17Alguém de entre a multidão disse-lhe: «Mestre, trouxe-te o meu filho que tem um espírito mudo. 18Quando se apodera dele, atira-o ao chão, e ele põe-se a espumar, a ranger os dentes e fica rígido.


O resultado deste encontro é o segundo momento, composto por um pedido. Neste trecho, como o doente encontra-se sob a influência do espírito mudo é a mãe que apresenta a petição a Jesus, o mesmo pedido que havia sido feito aos discípulos. São, por isso, os figurantes anónimos que fazem a deslocação do doente, como que num segundo momento da aproximação: mas aqui não é tão relevante, pois é uma questão meramente secundária.

19Disse Jesus: «Ó geração incrédula, até quando estarei convosco? Até quando vos hei-de suportar? Trazei-mo cá.» 20E levaram-lho.

Ao ver Jesus, logo o espírito sacudiu violentamente o jovem, e este, caindo por terra, começou a estrebuchar, deitando espuma pela boca.


O terceiro elemento é composto por um obstáculo que serve de revelação da fé dos intervenientes. Neste caso, é feito ao pai do endemoniado que, entretanto, aparece em cena e faz a sua declaração de fé.

21Jesus perguntou ao pai: «Há quanto tempo lhe sucede isto?» Respondeu: «Desde a infância; 22e muitas vezes o tem lançado ao fogo e à água, para o matar. Mas, se podes alguma coisa, socorre-nos, tem compaixão de nós.»

23«Se podes...! Tudo é possível a quem crê», disse-lhe Jesus.

24Imediatamente o pai do jovem disse em altos brados: «Eu creio! Ajuda a minha pouca fé!»


Seguidamente, surge o toque ou a ordem de Jesus, sempre antecedendo a cura. O trecho apresenta Jesus falando imperiosamente ao espírito para abandonar aquele filho, mas acaba por lhe tocar, ajudando o curado a levantar-se.

25Vendo, Jesus, que acorria muita gente, ameaçou o espírito maligno, dizendo: «Espírito mudo e surdo, ordeno-te: sai do jovem e não voltes a entrar nele.» 26Dando um grande grito e sacudindo-o violentamente, saiu. O jovem ficou como morto, a ponto de a maioria dizer que tinha morrido. 27Mas, tomando-o pela mão, Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé.


O quinto elemento do efeito produzido, ou da cura, é apresentado juntamente com o elemento anterior.

Primeiro, temos a expulsão do demónio:

«Espírito mudo e surdo, ordeno-te: sai do jovem e não voltes a entrar nele.»

Depois, temos a recuperação dos sentidos e do ânimo do curado:

Mas, tomando-o pela mão, Jesus levantou-o...


Após estes cinco elementos, temos a reacção dos presentes que atestam o facto miraculoso. Também está presente nesta passagem, mas, de forma particular, está reservada a uma conversa explicatória às dúvidas dos discípulos:

28Quando Jesus entrou em casa, os discípulos perguntaram-lhe em particular: «Porque é que nós não pudemos expulsá-lo?» 29Respondeu: «Esta casta de espíritos só pode ser expulsa à força de oração.»

Este esquema, tem claramente repercussão na maioria das passagens que se referem aos milagres e curas, apresentando-o como parte da estilística própria em Marcos e que denota a especial atenção ao leitor, ao serviço da sua reflexão e consequente adesão de fé. Toda esta riqueza aparece estranhamente escondida por um texto de ritmo acelerado e aparentemente simples, mas que não é de modo algum ingénuo. Estes recursos literários revelam um Evangelho de Marcos, que é, afinal, obra engenhosa e de objectivos concretos.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Análise textual

Sequência em Mt 22,15-46:

15Então, os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras. 16Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. 17Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?» 18Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» 21«De César» - responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» 22Quando isto ouviram, ficaram maravilhados e, deixando-o, retiraram-se. 23Nesse mesmo dia, os saduceus, que não acreditam na ressurreição, foram ter com Ele e interrogaram-no. 24«Mestre, Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos, o seu irmão casará com a viúva, para suscitar descendência ao irmão. 25Ora, entre nós havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem descendência, deixando a mulher a seu irmão; 26sucedeu o mesmo ao segundo, depois ao terceiro, e assim até ao sétimo. 27Depois de todos eles, morreu a mulher. 28Então, na ressurreição, de qual dos sete será ela mulher, visto que o foi de todos?» 29Jesus respondeu-lhes: «Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. 30Na ressurreição, nem os homens terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como anjos no Céu. 31E, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus disse: 32Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Não dos mortos, mas dos vivos é que Ele é Deus!» 33E a multidão, ouvindo-o, maravilhava-se com a sua doutrina. 34Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. 35E um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: 36«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. 38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. 40Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.» 41Estando os fariseus reunidos, Jesus interrogou-os: 42«Que pensais vós do Messias? De quem é filho?» Responderam-lhe: «De David.» 43Disse-lhes Ele: «Como é, então, que David, sob a influência do Espírito, lhe chama Senhor, dizendo: 44Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que Eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés’? 45Ora, se David lhe chama Senhor, como é seu filho?» 46E ninguém soube responder-lhe palavra. A partir de então, ninguém mais se atreveu a interrogá-lo.


Este conjunto textual aparece com uma relação entre si baseada quer no momento que lhe antecede quer no momento que lhe sucede.

No momento imediatamente anterior vemos Jesus, neste Evangelho segundo São Mateus, capítulo 21, a dirigir várias parábolas à multidão de Jerusalém, que os sacerdotes e os fariseus escutam e compreendem serem-lhes dirigidas (cf. Mt 21,45). É então deste mesmo ponto que parte a sequência seguinte, em que fariseus e saduceus tentam apanhar Jesus através de ardis que sucessivamente lhe vão colocando. Os dirigentes do povo estão à espera de o puder apanhar e descredibilizar frente à multidão, que venera Jesus e as suas palavras (cf. Mt 21,15.45) De facto, querendo apanhar Jesus não o tinham feito por medo da multidão (cf. Mt 21,46).

Assim se estabelecem os laços desta sequência. É pois o tema e a personagem de Jesus sendo interrogada ou dialogando com os diferentes partidos, que liga os micro-relatos aqui presentes. O palco é a cidade de Jerusalém, onde Jesus havia feito sucessivas pregações em dias diferentes, das quais a primeira Mateus refere ter ocorrido no Templo, concomitantemente com a expulsão dos vendilhões e cambistas. Jesus proclama várias parábolas contra a autoridade religiosa instituída que não reconhece a chegada do Reino de Deus. Após a parábola das bodas do filho do rei (cf. Mt 22,1-14), iniciam-se as sucessivas tentativas dos partidários religiosos para surpreenderem Jesus (cf. Mt 22,15), mas que falham de todas as vezes, até ao ponto em que ficam sem palavras e desistem (cf.Mt 22,46).

A sequência interrompe-se, dando início a uma outra fase em que Jesus se vira para as multidões e para os discípulos (cf. Mt 23,1) e alerta todos para escutarem a palavra das autoridades, mas não para lhes imitar as más obras (cf. Mt 23,2). Este é o grande tema que vai marcar o discurso de Jesus, que se segue à sequência apresentada (cf. Mt 23,1-36).


Divisão da sequência em micro-relatos

Dentro de uma sequência, a distinção dos micro-relatos é feita a partir das diferenças de algumas características que geralmente são introduzidas em cada micro-relato. Evidenciam essa a divisão o tempo, o espaço, as personagens e o tema.

Assim, na sequência apresentada anteriormente apresentamos a seguinte divisão em micro-relatos:

1º Micro-relato

15Então, os fariseus reuniram-se para combinar como o haviam de surpreender nas suas próprias palavras. 16Enviaram-lhe os seus discípulos, acompanhados dos partidários de Herodes, a dizer-lhe: «Mestre, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te deixares influenciar por ninguém, pois não olhas à condição das pessoas. 17Diz-nos, portanto, o teu parecer: É lícito ou não pagar o imposto a César?» 18Mas Jesus, conhecendo-lhes a malícia, retorquiu: «Porque me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda do imposto.» Eles apresentaram-lhe um denário. 20Perguntou: «De quem é esta imagem e esta inscrição?» 21«De César» - responderam. Disse-lhes então: «Dai, pois, a César o que é de César e a Deus o que é de Deus.» 22Quando isto ouviram, ficaram maravilhados e, deixando-o, retiraram-se.

O tempo é imediatamente a seguir à pregação de Jesus e a uma reunião dos fariseus. O espaço é a cidade de Jerusalém, provavelmente o Templo, que é o último espaço referido pelo Evangelista quando localiza os discursos anteriores. Mas independentemente dessas referências extra-sequênciais, é com certeza um lugar onde Jesus se encontrava com uma multidão reunida à sua volta. O espaço distinto que se refere primeiramente, onde os fariseus se reuniram, parece apenas uma referência com o intuito de contextualizar o leitor, sobre as personagens que realmente intervêm e que são os discípulos enviados pelos fariseus com os herodianos. O tema concreto do relato, para além do que introduz a sequência (surprender Jesus numa cilada), é a questão da tributação e da sua legitimidade, questão sensível ao Judeus sob a autoridade romana.

2º Micro-relato

23Nesse mesmo dia, os saduceus, que não acreditam na ressurreição, foram ter com Ele e interrogaram-no. 24«Mestre, Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos, o seu irmão casará com a viúva, para suscitar descendência ao irmão. 25Ora, entre nós havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem descendência, deixando a mulher a seu irmão; 26sucedeu o mesmo ao segundo, depois ao terceiro, e assim até ao sétimo. 27Depois de todos eles, morreu a mulher. 28Então, na ressurreição, de qual dos sete será ela mulher, visto que o foi de todos?» 29Jesus respondeu-lhes: «Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. 30Na ressurreição, nem os homens terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como anjos no Céu. 31E, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus disse: 32Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Não dos mortos, mas dos vivos é que Ele é Deus!» 33E a multidão, ouvindo-o, maravilhava-se com a sua doutrina.

A necessidade de uma referência temporal quer distinguir este encontro do primeiro, mesmo sendo durante o mesmo dia. O espaço, por seu lado, será o mesmo ou, pelo menos, permanece desconhecido, já que não se encontra explícito. As personagens são agora Jesus e os saduceus, para além da multidão de fundo sempre presente. O tema é a questão da esperança na ressurreição e como ela se articula com os preceitos mosaicos.

3º micro-relato

34Constando-lhes que Jesus reduzira os saduceus ao silêncio, os fariseus reuniram-se em grupo. 35E um deles, que era legista, perguntou-lhe para o embaraçar: 36«Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?» 37Jesus disse-lhe: Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com toda a tua mente. 38Este é o maior e o primeiro mandamento. 39O segundo é semelhante: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. 40Destes dois mandamentos dependem toda a Lei e os Profetas.»

Aqui, novas informações sobre o tempo e o espaço são omitidas, mas ainda que o espaço seja o mesmo, a nível temporal este encontro distingue-se temporalmente do anterior, uma vez que aparece como pressuposto a divulgação do resultado do encontro anterior, antes da iniciativa de um novo confornto com Jesus pelas personagens deste trecho. Os fariseus substituem, portanto, os saduceus face ao momento anterior e sobressai um deles, que era especialista na Lei. O tema é exactamente qual a formulação principal da Lei.

4º micro-relato

41Estando os fariseus reunidos, Jesus interrogou-os: 42«Que pensais vós do Messias? De quem é filho?» Responderam-lhe: «De David.» 43Disse-lhes Ele: «Como é, então, que David, sob a influência do Espírito, lhe chama Senhor, dizendo: 44Disse o Senhor ao meu Senhor: ‘Senta-te à minha direita, até que Eu ponha os teus inimigos por estrado de teus pés’? 45Ora, se David lhe chama Senhor, como é seu filho?» 46E ninguém soube responder-lhe palavra. A partir de então, ninguém mais se atreveu a interrogá-lo.

Novamente, o tempo e o espaço carecem de novas referências. Apenas como evidência de uma certa diferença temporal surge a necessidade de explicitar a reunião dos fariseus, quando tal já estava esclarecido no micro-relato anterior. Certo é que agora não intervém novamente o legista e é Jesus quem se dirige aos fariseus, contrariando a tendência dos micro-relatos precedentes. O tema é a origem messiânica, seguido da conclusão da sequência, em que os partidos religiosos se dão por vencidos no confronto com Jesus.


Caracterização das Personagens

As personagens pela seu desempenho ao longo do enredo, podem ser consideradas personagens planas ou redondas, adjuvantes ou opositoras. As planas definem-se pela não sofrerem qualquer alteração na sua posição ao longo do enredo. As redondas são classificadas como tal, porque na interacção da trama textual apresentam alterações na sua posição. As adjuvantes colocam-se favoravelmente em relação ao protagonista. As opositoras são aquelas que se revelam adversárias em relação à posição do protagonista.

Se circunscrevermos esta análise à sequência proposta, podemos vislumbrar as seguintes personagens: Jesus, a multidão, e o grupo dos saduceus e dos fariseus, com os seus discípulos e o legista, que integram as mesmas características e a mesma posição na intriga.

Jesus, sendo o protagonista, apresenta-se como uma personagem redonda, se analisarmos por esta perspectiva de que, sendo maioritariamente alvo de ardis, no último micro-relato da sequência, é Ele quem toma a iniciativa de confrontar os fariseus. A multidão, como personagem colectiva mantém sobretudo como fundo do enredo e pouco interveniente. Temos apenas uma referência (cf. Mt 22,33) que indicam uma simpatia se tomámos a expressão “estavam maravilhadas” do grego original. Consideremo-la, portanto, como plana e adjuvante. Os partidários saduceus e fariseus, assumem-se claramente como opositores, visto que desejam surpreender Jesus com as suas questões. Ao longo do texto e das sucessivas tentativas vão sendo silenciados (cf. Mt 22,34.46), e inclusivamente os seus discípulos ficam admirados com a resposta de Jesus (cf. Mt 22,22). Mas no fim da sequência temos claramente a manifestação de que foi frustrada a sua tentativa de apanhar Jesus, já que não mais ousaram questioná-lo, por não terem com que responder (cf Mt 22,46). Posto isto, assumimos que são também personagens redondas, devido a essa alteração na forma de como se manifestam.


Esquema quinário no micro-relato Mt 22,23-33

23Nesse mesmo dia, os saduceus, que não acreditam na ressurreição, foram ter com Ele e interrogaram-no. 24«Mestre, Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos, o seu irmão casará com a viúva, para suscitar descendência ao irmão. 25Ora, entre nós havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem descendência, deixando a mulher a seu irmão; 26sucedeu o mesmo ao segundo, depois ao terceiro, e assim até ao sétimo. 27Depois de todos eles, morreu a mulher. 28Então, na ressurreição, de qual dos sete será ela mulher, visto que o foi de todos?» 29Jesus respondeu-lhes: «Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. 30Na ressurreição, nem os homens terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como anjos no Céu. 31E, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus disse: 32Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Não dos mortos, mas dos vivos é que Ele é Deus!» 33E a multidão, ouvindo-o, maravilhava-se com a sua doutrina.

Toda a narrativa exige uma transformação, pois esta é a sua única forma de existir. Isto exige que haja um um nó que seguidamente se desenlace. Este sistema binário, de nó e desenlace, pode ser mais esclarecedor num sistema quinário, que é a sua complexificação, para melhor compreensão da orgânica própria do relato.

Assim, temos primeiro uma “situação inicial” que fornece os dados contextuais do acontecimento. Em seguida, surge o “nó”, um problema em aberto que abre o interesse do relato. Depois, chega-se a um momento preciso, em que se dá uma transformação na linha da intriga, uma viragem a que chamamos a “acção transformadora”. De seguida, dá-se o “desenlace” daquele problema ainda em aberto. Por fim somos deixados na “situação final”.

Neste texto, portanto, a situação inicial aparece aqui:

23Nesse mesmo dia, os saduceus, que não acreditam na ressurreição, foram ter com Ele...

Em seguida chegamos ao ponto em que se dá um nó na intriga e se choca num problema:

...e interrogaram-no. 24«Mestre, Moisés disse: Se algum homem morrer sem filhos, o seu irmão casará com a viúva, para suscitar descendência ao irmão. 25Ora, entre nós havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu sem descendência, deixando a mulher a seu irmão; 26sucedeu o mesmo ao segundo, depois ao terceiro, e assim até ao sétimo. 27Depois de todos eles, morreu a mulher. 28Então, na ressurreição, de qual dos sete será ela mulher, visto que o foi de todos?»

Posto isto, dá-se uma acção transformadora na resposta de Jesus:

29Jesus respondeu-lhes: «Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus. 30Na ressurreição, nem os homens terão mulheres nem as mulheres, maridos; mas serão como anjos no Céu.

Por fim dá-se o desenlace do problema:

31E, quanto à ressurreição dos mortos, não lestes o que Deus disse: 32Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob? Não dos mortos, mas dos vivos é que Ele é Deus!»

Por fim resta-nos esclarecer a situação final:

3E a multidão, ouvindo-o, maravilhava-se com a sua doutrina.

Concluindo, apenas dizer que olhando para esta estrutura, com que se apresenta a intriga, podemos caracterizá-la fundamentalmente como intriga de resolução, já que a hipótese de intriga de revelação não nos parece tão evidente na narrativa.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

A eleição dos Doze nos Sinopticos: Mt 10, 1-4; Mc 3, 13-19; Lc 6, 12-16

Mt 10, 1-4

Jesus chamou doze discípulos e deu-lhes poder de expulsar os espíritos malignos e de curar todas as enfermidades e doenças. São estes os nomes dos doze Apóstolos: primeiro, Simão, chamado Pedro, e André, seu irmão; Tiago, filho de Zebedeu, e João, seu irmão; Filipe e Bartolomeu; Tomé e Mateus, o cobrador de impostos; Tiago, filho de Alfeu, e Tadeu; Simão, o Zelota, e Judas Iscariotes, que o traiu.

Mc 3, 13-19

Jesus subiu depois a um monte, chamou os que Ele queria e foram ter com Ele. Estabeleceu doze para estarem com Ele e para os enviar a pregar, com o poder de expulsar demónios. Estabeleceu estes doze: Simão, ao qual pôs o nome de Pedro; Tiago, filho de Zebedeu, e João, irmão de Tiago, aos quais deu o nome de Boanerges, isto é, filhos do trovão; André, Filipe, Bartolomeu, Mateus, Tomé, Tiago, filho de Alfeu, Tadeu, Simão, o Cananeu, e Judas Iscariotes, que o entregou.

Lc 6, 12-16

Naqueles dias, Jesus foi para o monte fazer oração e passou a noite a orar a Deus. Quando nasceu o dia, convocou os discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de Apóstolos: Simão, a quem chamou Pedro, e André, seu irmão; Tiago, João, Filipe e Bartolomeu; Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado o Zelote; Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, que veio a ser o traidor.

Os três textos acima relatam a eleição dos Doze. Apesar de relatarem o mesmo facto, os textos tem diferenças significativas. Em comum tem o narrador ser extradiegético, a acção, isto é, a eleição dos Doze partir de Jesus, serem Doze os escolhidos (veremos as semelhanças e diferenças nas listas mais adiante).

Embora, como dissemos a eleição dos Doze parta de Jesus, há diferenças entre os textos na forma como ela decorre. Nos textos nada nos é dito muito quanto ao local em que ocorre a eleição dos Doze. Mateus não nos diz nada sobre o local, Marcos apenas menciona um monte, Lucas menciona o monte (artigo definido). Mateus e Marcos nada dizem também acerca do tempo, Lucas só menciona que Jesus terá passado a noite a orar e que eleição dos Doze terá sido ao amanhecer.

A acção de Jesus

Mateus diz-nos que Jesus chamou doze discípulos.

Marcos é mais explícito. Diz que Jesus «chamou os que Ele queria» (presume-se que seriam discípulos) e que «foram ter com Ele». Assim, Marcos enfatiza que se trata de uma escolha de Jesus, a qual é respondida.

Em Lucas a acção de Jesus na eleição dos Doze tem particularidades próprias a este evangelista. Assim, Lucas é claro quanto ao facto de Jesus ter antecedido esta acção por um tempo de retiro, de dias, e de uma noite em particular «a orar a Deus». De seguida diz que ao amanhecer do dia Jesus convocou os discípulos, escolheu doze entre eles, aos quais deu nome de apóstolos.

O que são estes Doze

Mateus diz que os Doze receberam de Jesus o poder de expulsar os espíritos malignos, curar todas as enfermidades e doenças. Depois diz que estes são dos doze Apóstolos.

Marcos diz que Jesus estabeleceu os Doze para estarem com Ele (nem Mateus nem Lucas mencionam este estar com Jesus), para os enviar a pregar com o poder de expulsar demónios. Temos aqui duas particularidades importantes sobre os Doze: estarem com Jesus e a finalidade desta escolha pessoal de Jesus relacionava-se com envio e a pregação depois de estarem com eles. Em comum com Mateus tem o poder de os Doze expulsarem demónios.

Apesar de Lucas não nos dizer nada sobre qual a missão destes doze apóstolos, a eleição destes no texto de Lucas tem particularidades que nos ajudam a compreender o que são estes doze. Antes de mais, a eleição dos doze brota da oração de Jesus e da sua intimidade com Jesus. Depois é realizada ao amanhecer, com tudo o que isso possa significar. Diz-se que Jesus convocou os discípulos e que escolheu doze entre eles, ou seja, são destacados entre os discípulos, o que confere a estes doze uma identificação distinta dos restantes discípulos. O que está bem patente no nome com que Jesus designa o conjunto, apóstolos, que significa enviados.

A Lista dos Doze/Quem são estes Doze

Em todas as listas aparece em primeiro lugar Simão. Mateus diz que também é chamado Pedro. Marcos e Lucas são mais explícitos, dizem que o nome de Pedro lhe foi dado por Jesus.

Em último lugar, em todas as listas, aparece Judas Iscariotes, sendo mencionado sempre que foi quem traiu Jesus. Marcos diz que foi quem entregou Jesus.

Outras duas semelhanças entre as duas listas é Filipe aparecer sempre em quinto lugar e Bartolomeu em sexto lugar.

André também tem um proeminente. Em Mateus e Lucas aparece em segundo lugar, sendo que estes dois evangelistas também nos explicitam que era irmão de André.

Tiago e João são outros dois destacados na lista. Em Mateus, Tiago aparece-nos em terceiro lugar, após Simão e André, é chamado filho de Zebedeu. João, seu irmão, como é indicado, aparece em quarto lugar. Em Lucas, Tiago aparece, tal como em Mateus, em terceiro lugar e João em quarto, mas não é indicado o seu parentesco. Em Marcos, contrariamente aos outros dois sinópticos, Tiago (também designado como filho de Zebedeu) aparece-nos em segundo lugar na lista dos Doze, após Simão, seguido do seu irmão João. Mas é acrescentado que Jesus lhe «deu o nome de Boanerges, isto é, filhos do trovão».

Em Mateus aparece-nos em sétimo na lista do Doze, Tomé, seguido de Mateus, que é chamado «o cobrador de impostos». Em Marcos e Lucas, aparece em sétimo na lista, Mateus, sobre o qual não é dito mais nada. Nestes dois evangelistas em oitavo lugar aparece-nos Tomé.

Nas três listas aparece em nono lugar Tiago, filho de Alfeu.

Em Mateus e Marcos aparece em décimo lugar Tadeu. Em Lucas, por sua vez, em décimo lugar Simão, que o narrador diz que era «chamado o Zelote».

Em Mateus e Marcos aparece em décimo primeiro lugar Simão. Em Mateus chamado o Zelota, tal como em Lucas, em Marcos chamado o Cananeu.

A maior discrepância entre as listas, ou a única até, considerando que as outras são pormenores, está o discípulo que Lucas coloca em décimo primeiro lugar, Judas, filho de Tiago. Não aparecendo Tadeu, que aparece em Mateus e Marcos, em décimo lugar na lista.

O Discurso

O discurso dos três evangelistas coincide no facto de porem no centro da acção a escolha dos Doze por parte de Jesus, divergindo depois na relação de Jesus com os Doze. Assim, Mateus é o mais impessoal, diz apenas que Jesus chamou os Doze discípulos. Marcos é o que mais acentua a dimensão da escolha pessoal de Jesus. Por isso diz que Jesus escolheu os que Ele queria e para estarem come Ele. Esta relação pessoal entre Jesus e os Doze está bem presente ainda quando Marcos nos diz que Simão, Tiago e João recebem de Jesus um novo nome. Lucas, embora não acentue tanto como Marcos a relação pessoal de Jesus com os Doze, ao colocar Jesus em oração uma noite antes, realça como se tratou de um momento importante para Jesus. Ademais, Lucas coloca explicitamente, entre Jesus e a escolha dos Doze, Deus, ao mencionar que antes de escolher os Doze Jesus orou a Deus.

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