quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Evangelho de Lucas
O Evangelho de Lucas abre com os textos da infância de Jesus. Aqui. O ponto de vista é o de Maria. A anunciação contém afirmações máximas de Jesus, que depois não são retomadas mais. De facto, o Evangelho da infância é uma espécie de guia proléptico de todo o Evangelho.
A partir de vida pública de Jesus, já são só aqueles têm Fé que fazem afirmação sobre Jesus. E são sempre as pessoas mais inconvenientes a testemunhar Jesus: os doentes, pecadores, …
O modo como Jesus fala e actua permitem lançar a luz para a compreensão de quem ele é. Por isso, no macro-relato tudo se orienta para a revelação da pessoa de Jesus. Lucas é um relato de revelação.
E que o magistério de Jesus é muito diferente do dos seus predecessores. Ele é um mestre singular e tem autoridade que lhe vem dele próprio, escolhendo os seus discípulos em seu próprio nome.
Esta questão da autoridade é fundamental pois o judaísmo do tempo de Jesus vivia uma profunda crise de autoridade. Ora no seio dessa crise emerge Jesus a reivindicar autoridade.
Em Lucas 20,1.8, Jesus esta no templo, espaço da autoridade por excelência, e é confrontado com a questão da autoridade. Mas Jesus não lhes revela de quem vem a sua autoridade, mas o leitor sabe que ela vem de Deus, não porque Jesus no-lo diga, mas porque as suas acções e obras o manifestam: curas de doenças, expulsões de demónios, autoridade taumaturga sobre a natureza e sobe a morte, etc.
Como tal, estes milagres não são magia, mas acontecem pela força da palavra de Jesus. E pela Fé, o crente experimenta o Reino de Deus, pois Jesus não se fica pela cura. Assim o milagre é m episódio de Fé.
Os milagres são sinal da inserção de Reino de Deus na história, que está doente. Os milagres são renovação escatológica do real e apontam para o futuro. Por isso aqueles que Jesus curou são sinal e garantia de futuro.
Em Lucas, Jesus aparece como Mestre e todos estão de acordo sobre isso. Por isso Jesus aparece a ensinar e há quem o escute (conferir 4,15; 11,1; 9,14; 10,39).
E então Lucas constrói a pessoa de Jesus tentando hipóteses:
Jesus aparece como subversor:”encontramos este homem subvertendo a nossa nação” (lc23,2). Jesus coloca-se em linha de colisão com as autoridades. Ele esvazio o papel do templo, substituindo-o no perdão dos pecados (conferir Lc.13,34-45; 19,41-44; 21,20-44).
É que Jesus não se limita às fronteiras judaicas mas alarga-se e por isso é acusado de violar o sábado, não respeitar os jejuns, conviver com publicanos e pecadores, etc.
Assim, Lucas mostra que Jesus vai Às situações concretas e limites para as transformar. Lucas quer que Jesus seja entendido como o grande transformador, como revelador de um Deus actua hoje e transforma o concreto das vidas.
Jesus aparece também como o profeta. Em Lucas 4,16-30 Jesus compara-se com o paradigma profético, e cita Elias e Eliseu, porque foram os dois únicos profetas que fora, unidos, com Jesus o será.
Se em Marcos e Mateus há uma identidade entre Elias e João Baptista (ele «é o Elias que estava para vir» Mateus 11,14) em Lucas não temos esse paralelismo. Isto porque Lucas concede a João Baptista uma função muito restrita, a de cultivar a expectativa pelo tempo iminente do julgamento. Assim, para Lucas, o novo Elias não é João mas o próprio Jesus, profeta.
Mas que tipo de profeta vê a multidão em Jesus?
Em Lucas 7,16 temos «um grande profeta» Óscar Cullmann afirma que estes adjectivos não eram aplicados ao messias escatológico, pelo que Jesus era ainda incluído na linhagem dos profetas antigos.
Segue-se depois o episódio da pergunta da João Baptista e da refeição em casa do fariseu.
A pergunta de João Baptista é saber se Jesus é o profeta escatológico, o que estava para vir, ou se era apenas mais um profeta. E a resposta de Jesus não é uma definição sobre a sua pessoa, mas ma cristologia narrativa, uma definição sobre si próprio que se constrói a partir dos efeitos das suas acções e gestos, usando termos de Isaías:«os cegos vêem, os coxos andam, etc» (Lc7,22). Cinco milagres, mais os pobres que são evangelizados, em jeito de remate final.
E Jesus conclui com um macarismo, que naturalmente aponta para a escatologia (Lc7,23)
Lucas quer também mostrar que Jesus é o novo Moisés.
Em Lucas 13,33, Jesus assume-se como profeta, mas mesmo aqui esse título tem apenas uma natureza funcional. E a própria acção de Jesus põe vezes em causa esse título de profeta. Assim, a categoria de profeta é importante para perceber Jesus, mas é tb insuficiente. Em Lucas, são várias as categorias para falar de Jesus (mestre, profeta, taumaturgo) mas o que é decisivo é apresentar Jesus como o salvador.
Lucas é o Evangelho da Salvação.
Evangelho de Marcos
Este é o Evangelho pleno de suspence, que não sabemos como vai acabar. O Jesus de Marcos é desconcertante e surpreendente. Este evangelho é uma encenação entre o Bem e o Mal, o triunfo e o fracasso (assim a entrada de Jesus em Jerusalém é um triunfo que acaba na cruz). Estão em causa a morte e a vida, todo o destino humano. Por isso o Evangelho não é apenas um colecção de episódios ou de moral.
Papias no século II atribui este Evangelho a João Marcos, citado como filho de Pedro (“Marcos, meu filho” in 1Pe5,13). Teria sido escrito em Roma pela década de 60, por um discípulo próximo de Pedro.
É um evangelho escrito tanto para judeus como para gentios. Por isso muitas palavras estão no texto traduzidas do aramaico para o grego. Por outro lado também não sente necessidade de explicar, por exemplo, quem os fariseus eram, supondo que o leitor o entenderia.
O Evangelho não é uma biografia. Tem um certo interesse biográfico da pessoa de Jesus mas falta informação sobre alguns aspectos e detalhes. Por isso é diferente das “vidas Paralelas de Plutino”, escritas também por esta altura.
O Evangelho tem também algo de tragédia: a morte de um inocente. E no entanto não é uma tragédia.
Tem igualmente um estilo de novela, mas também não é uma novela, pois se por vezes se serve dessa forma de contar, a sua base e objectivo é outro: não é entretenimento mas comunicação de uma experiencia de vida.
Tem igualmente parábolas mas não é uma parábola, e midrash sem ser midash.
Assim, o Evangelho é um género literário totalmente novo. Evangelho é a proclamação de que Jesus é o Cristo. O Evangelho conta uma transformação, pois só onde há composição consistente, unitária, coerente e com uma estratégia directiva.
O narrador de Marcos é extradiegético e omnisciente: está fora da história mas sabe tudo. Narra todos os detalhes e pensamentos dos personagens, de modo que o leitor +é mais privilegiado que as personagens.
Com esses apartes, o texto vai ganhando a confiança do leitor. Esta é uma estratégia que se revela decisiva ara o narrador poder depois falar ao leitor da ressurreição de Jesus. É que o narrador procura preparar o leitor para ajudá-lo a aceitar o que é difícil: a ressurreição. Assim, o leitor vai construindo um horizonte sobre o final de Jesus.
Por exemplo, Marcos conta detalhadamente a morte de João Baptista, porque esta prepara o leitor para a morte de Jesus. E tudo o que Jesus anuncia se vai cumprindo, dando-lhe credebilidade.
Marcos compõe ainda um Evangelho muito visível: a escrita ganha muita vida porque os episódios são breves e sucedem-se rapidamente. Marcos recorre muito ao uso de “e” e aos particípios. Temos muita acção. Apenas tem dois monólogos (mc.4,1-33 e Mc.13,1-37) porque Jesus é sobretudo alguém que actuam, maisdo que fala.
A acção está dividida em dois momentos: o ministério de Jesus na Galileia (cap.1 a 10) e em Jerusalém (cap.11-16).
Ora na Galileia temos sempre um espaço muito definido (“algures”, “no caminho”), mas em Jerusalém sabemos sempre onde a acção decorre. Na Galileia a temporalidade é lenta e simbólica. Em Jerusalém as horas são referidas e sucedem-se.
Marcos serve-se ainda da recursos de grande satisfação repetindo detalhes a fim de que o leitor fixe determinada mensagem:
.”Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” Mc1,1
.”Tu és o Cristo” (Pedro) Mc8
.”É verdadeiramente o Filho de Deus” (centurião) Mc.15,3
Marcos erve-se também de cenas tipo, em especial oos relatos de milagres, composto por vários pontos:
1- abeirar-se;
2- petição;
3- vencer um obstáculo coom forma de revelar a Fé;
4- acção de Jesus que toca ou pronuncia palavras;
5- o efito;
6- a recepção
Estes pontos são muito úteis para o leitor, pela sua simplicidade e pedagogia.
Marcos usa também episódios-colchete: Mc.12,41 e Mc.14-3.
A mulher também ela foi extravagante. Depois a viúva deu para o templo, e a mulher deu para o tempo que é Jesus.
Usa também cenas em sanduwish.
Marcos também usa muito a progressão em três passo, para mostrar que com Jesus as coisas têm sempre um meta-significado.
Mc.14: Jesus reza três vezes e por três vezes encontra os discípulos a dormir
Mc.15:Pilatos interroga três vezes a multidão, que recusa três vezes
Mc.15,25:Era a hora terceira
Mc.15,33: até à hora nona a terra teve três horas na escuridão
Temos ainda 3 relatos vocacionais, 3 conflitos na barca e 3 anúncios da morte de Jesus. Assim o que começa no 1 deve cumprir-se no 3. Por Marcos é tido também como o Evangelho do caminho.
E de facto, Marcos vai desta forma fazendo caminho com o leitor. O texto tem assim uma pedagogia de credibilidade em relação ao seu leitor.
Por outro lado, são muitas as perguntas que em Marcos não tem resposta, criando um texto mais aberto para o leitor ir caminhando sempre de pergunta em pergunta. São perguntas sem resposta, que implicam e comprometem o leitor com o texto (Mc4,40). Outras vezes, Jesus responde a uma pergunta com outra pergunta (Mc.12,10-11; Mc.12,14-16). Isto cria no texto uma tensão revelatória essencial para o leitor.
Depois, Marcos é muito realista. O cenário do mundo tem doenças, morte e sofrimento. O Evangelho conforta-se com um mundo em que os homens não estão felizes. Mas aos poucos o tempo vai sendo preparado a partir do tempo teológico da salvação “cumpriu-se o tempo, avizinha-se o reino de Deus”.
E ao longo do Evangelho, Jesus percorre esse mundo todo, nunca se fixando senão em Jerusalém. Na Galileia muda de lugar 40 vezes até que chega a Jerusalém, pois é para lá que todo o Evangelho aponta: para o ligar da luz.




Evangelho de Mateus

É o primeiro do Cânon porque é tido como o Evangelho por excelência. Teve grande acolhimento na Igreja primitiva, pois fala também das relações entre a Igreja e o mundo Judaico.
Terá sido escrito nas décadas de 80/90, após a destruição do templo, de Jerusalém, tal como parece sugerir o Capitulo 24.
Após a destruição do templo, o judaísmo vai renascer em torno da academia de Jamnia, graças a Joaquim Ben. Ora este judaísmo vai opor-se ferozmente ao cristianismo, que tinha sido neutro na guerra contra os romanos.
Então Mateus escreve este Evangelho em jeito de resposta aos judeus. Por isso mostra a Igreja e os cristãos como o novo Israel. No entanto para não limitar o Cristianismo, ás fronteiras do Judaísmo, Mateus também não estabelece um paralelismo absoluto. Assim, vemos que em Mateus nada é por acaso.
Mateus é portanto escrito como apologia de Jesus e da experiência cristã contra o judaísmo saído de jamnia, que acusava os cristãos de não terem defendido Jerusalém nas guerras judaicas contra os romanos, o que de facto aconteceu porque:
-os cristãos esperavam a vinda de Jesus, a parousia, pelo que a destruição de Jerusalém era sinal dessa vinda escatológica, e por isso a destruição era inevitável.
-a esperança dos cristão era diferente da dos judeus.
-o cristianismo tinha já uma consciência universal, não se limitando ao universo judeu.
-os cristãos reproduziam o modelo de profeta Jeremias aquando do ataque de Babilónia, e tal como o profeta confortavam-se com a história.
-os cristãos não queriam fundar no judaísmo a sua identidade, mas em Jesus. A Igreja era agora as antigas doze tribos de Israel, pelo que não havia razão para lutar pelo antigo: a Igreja de Jesus é que era o herdeiro de Israel.
Assim, Mateus é um Evangelho escrito num contexto delicado. Era preciso associar a noção judaica de Messias com a ideia de cruz, sinal de maldição para os judeus.
Não bastava falar de Jesus ás gerações seguintes, mas defende-lo dos ataques e mentiras do judaísmo. Como tal, Mateus precisava de mostrar que Jesus não era um embusteiro, mas que tinha um passado que o certifica e lhe dá credibilidade. Por isso o Evangelho abre com a genealogia de Jesus, para mostrar que Jesus está na linhagem de David: Jesus é o novo David.
Para reforçar a relação de Jesus com a tradição judaica, Mateus apresenta ainda cinco mulheres nessa genealogia: Tamor, Roab, Rute, a mulher de Urias, e finalmente, Maria. As quatro mulheres conceberam e eram à luz de uma maneira especial, pelo que assim a virgem Maria que concebe ganha outra verosimilhança. Mateus mostra assim que o nascimento de Jesus de Maria não é uma farça, e que casos parecidos aconteceram já na história de Israel.
E Mateus fala três vezes de 14 gerações porque Jesus é três vezes David. A relação que Mateus estabelece com o Antigo Testamento passa também pelo uso de síncrise: construção de um personagem em paralelo com outro personagem. Assim temos José em oposição a Herodes. Mateus mostra que, tal com Saul se tinha revoltado contra David, também Herodes se volta contra Jesus, qual novo David. É uma actualização do livro dos Reis.
Também a fuga para o Egipto serve para actualizar o Antigo Testamento, segundo a profecia de Oseias 11,1.
No capitulo 2, Mateus relata a vinda dos reis magos, mostrando que antes mesmo de Jesus falar, já havia quem o procurasse. E foram juntos de Herodes, Ora não se vai junto do rei a propósito de qualquer um, pelo que Mateus reforça assim a importância de Jesus.
Os sábios do rei Herodes vão ainda ás Escrituras e identificam lã a geografia do nascimento de Jesus, reforçando a sua importância, pois até as Escrituras já se referiam ao nascimento de Jesus.
E se Jesus era uma ameaça para Herodes, é porque Herodes sabia bem quem era Jesus. Desta forma, Mateus mostrava aos judeus que não adiantava esconderem quem Jesus era, pois até o próprio Herodes o tinha logo reconhecido.
Jesus também regressa do Egipto, tal como outrora o povo de Israel tinha saído do Egipto pela mão de Deus: assim, Mateus mostrava que com Jesus começa o novo povo de Deus.
Finalmente, Jesus é o Nazareno. Três hipóteses para tal:
-pode derivar não de Nazaré, mas de Nazir--consagrado
-ou de Nezer--rebento, conferir Isaías ”nascerá um rebento”
-ou de Nasar--guardar, conferir Isaías “há-de guardar em seu coração”
Desta forma, vemos que o Evangelho de infância de Jesus constitui uma chave de leitura para toda a vida de Jesus. É um guia proléptico para acompanharmos Jesus.
Mateus relê a história de Israel, colocando Jesus no centro. È uma hermenêutica cristã da historia de Israel, em que cada elemento se reveste de segundos sentidos.
Mateus mostrava assim ao judaísmo que Jesus vinha na continuação da tradição judaica, e que põe isso não o poderiam negar. Através duma prosa tão encantadora que é o Evangelho da infância, Mateus elabora toda uma teologia de combate contra o judaísmo em defesa de Jesus.
Também por isso, ao longo de todo o Evangelho, Mateus cita muito o Antigo Testamento.
Tal como os cinco livros da Thorah, Mateus reproduz cinco discursos de Jesus: Sermão de Montanha e Anuncio de Reino; Discurso de missão; Parábolas; Discurso eclesial; Discurso escatológico.
Divisão da obra em três partes: Mateus 1,1; Mateus 4,17; Mateus 16,21
Divisão em seis partes:
1- Introdução 1,1-4,22
2- Jesus, poderoso em palavras e obras4,23-9,35
3- Envio dos discípulos 9,36-12,50
4- Formação dos discipulos13,1-17,27
5- Rutura com judaísmo18,1-22,46
6- Discurso de despedida, paixão e relatos pascais23,1-28,20




O incipit do evangelho de Lucas

1Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, 2como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", 3resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, 4a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído.


«(...) se o autor diz que as narrativas existentes já são numerosas e baseadas na tradição “ocular”, é que, para ele, relatar significa algo diferente de fixar por escrito uma tradição originária e oral em vias de desaparecimento.

(...) se o nosso autor se decidiu a contar, foi precisamente por existirem já narrativas autorizadas acerca dos acontecimentos de que ele próprio vai falar. Lucas conhece demasiado bem as Escrituras para ignorar que apresentam, por vezes, várias versões dos mesmos acontecimentos e que, para as diversas gerações bíblicas, o passado se mantivera objecto de constante meditação e reapropriação. O gesto de Lucas é análogo: a sua reformulação narrativa nada tem de repetição ou consignação mecânica, destina-se, sim, a comprovar uma coerência. (...) Lucas quer contar para que se conheça a solidez de coisas já sabidas e aceites. A narrativa não tem, pois, como única função informar – isso já outros fizeram antes dele –, mas também manifestar a verdade de uma vivência. A narrativa ainda não começou e o leitor já sabe que ela consistirá num longo processo de veridicção. (...) a comprovação da solidez da mensagem não é necessariamente provocada por ataques exteriores, faz parte do caminho da fé, tal como Lucas o concebe. A dinâmica da narrativa de Lucas reflecte, de certo modo, a de uma fides quaerens intellectum.

(...) Para Lucas, contar significa, de facto, manifestar a lógica de uma história, nos seus preparativos mais remotos. (...) Não qualificando a sua narrativa como «Evangelho», Lucas dá a entender que, para ele, a Boa Nova não é susceptível de se reduzir à sua (dupla) narrativa. (...) dentro da narrativa da vida de Jesus e por ela unificadas, as Escrituras são dadas a ler.»



Jean-Noël Aletti, Voltar a falar de Jesus Cristo, Ed. Cotovia, Lisboa, 1999, pp. 226-240.

Esquema Quinário

Lc 15,1-32

Situação inicial: “1.Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para O escutar”

Nó: “2. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam Jesus, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles!”.

Acção transformadora: 3. “Então Jesus contou-lhes esta parábola: 4. Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir procurar a ovelha que se perdeu, até a encontrar? 5. E, quando a encontra, com muita alegria coloca-a aos ombros”

Desenlace: “Chegando a casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: "Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida"

Situação final: “E Eu declaro-vos: assim, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”

Classificação de personagens:

  • Cobradores de impostos e pecadores – Personagens planas, não entrevêem na história, não se transformam.
  • Jesus – É uma personagem redonda, é ele que é posto em causa, e é ele que faz o desenrolar da história através destas parábolas dando assim resposta aos fariseus e aos doutores da Lei.
  • Fariseus e os doutores da Lei – Personagens planas, pois não interferem no decorrer da história,
  • Amigos e vizinhos – Personagens planas, não entrevêem na história, não se transformam.

Enquadramento:

  • Espaço – O micro relato não define o espaço onde as personagens se encontram, apenas diz que “1.Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para O escutar”, podemos por a hipótese que Jesus estava num espaço amplo pois todos os cobradores de impostos e os pecadores juntavam-se para ouvir Jesus e por ali perto deviam estar também os Fariseus e os doutores da Lei pois estes aparecem a criticar Jesus, “dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles!”.
  • Tempo: Sabemos que Jesus está num ocasião rodiado por impuros.Sabemos apenas que estamos perante uma relantização do discurso, ou seja estamos perante um micro-relato contado de forma acelerado com o objectivo de se contar apenas o mais importante que é a salvação da ovelha perdida e de haver “ alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
.

Sequência Narrativa Lc15,1-32

Lc 15,1-32
1. “Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para o escutar”.
2. “Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam Jesus, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles!».
3. “Então Jesus contou-lhes esta parábola:”
4. “Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir procurar a ovelha que se perdeu, até a encontrar?”
5.“E, quando a encontra, com muita alegria coloca-a aos ombros”.
6. Chegando a casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: "Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida".
7. “E Eu declaro-vos: assim, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
8. «Se uma mulher tem dez moedas de prata e perde uma, será que não acende uma lâmpada, varre a casa e procura cuidadosamente, até encontrar a moeda?
9. Quando a encontra, reúne amigas e vizinhas, para dizer: "Alegrai-vos comigo! Encontrei a moeda que tinha perdido".
10. “E Eu declaro-vos: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte».

11. Jesus continuou: “Um homem tinha dois filhos”.
12. O filho mais novo disse ao pai: "Pai, dá-me a parte da herança que me cabe". E o pai dividiu os bens entre eles.
13. Poucos dias depois, o filho mais novo juntou o que era seu e partiu para um lugar distante. E aí esbanjou tudo numa vida desenfreada.
14. Quando tinha gasto tudo o que possuía, houve uma grande fome nessa região e ele começou a passar necessidade.
15. Então foi pedir trabalho a um homem do lugar, que o mandou para os seus campos cuidar dos porcos.
16. O rapaz queria matar a fome com a vianda que os porcos comiam, mas nem isso lhe davam.
17. Então, caindo em si, disse: "Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui a morrer de fome...
18. Vou levantar-me, vou ter com meu pai e dizer-lhe: Pai, pequei contra Deus e contra ti;
19. já não mereço que me chamem teu filho. Trata-me como um dos teus empregados".
20. Então levantou-se e foi ter com o pai. Quando ainda estava longe, o pai avistou-o e teve compaixão. Correu ao seu encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos.
21. Então o filho disse: "Pai, pequei contra Deus e contra ti; já não mereço que me chamem teu filho".
22. Mas o pai disse aos empregados: "Depressa, trazei a melhor túnica para vestir o meu filho. E colocai-lhe um anel no dedo e sandálias nos pés.
23. Pegai no novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete.
24. Porque este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado". E começaram a festa.
25. O filho mais velho estava no campo. Ao voltar, já perto de casa, ouviu música e barulho de dança.
26. Então chamou um dos criados e perguntou o que estava a acontecer.
27. O criado respondeu: "É o teu irmão que voltou. E teu pai, porque o recuperou são e salvo, matou o novilho gordo".
28. Então, o irmão ficou com raiva e não queria entrar. O pai saiu e insistiu com ele.
29. Mas ele respondeu ao pai: "Eu trabalho para ti há tantos anos, nunca desobedeci a nenhuma ordem tua; e nunca me deste um cabrito para eu festejar com os meus amigos.
30. Quando chegou esse teu filho, que devorou os teus bens com prostitutas, matas o novilho gordo!"
31. Então o pai disse-lhe: "Filho, estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu.
32. Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”.

Depois de lermos estes versículos percebemos que estamos presente uma sequência narrativa, podemos encontrar três micro-relatos são eles: a ovelha perdida (vr. 1-7), a dracma perdida (vr. 8-10) e o filho perdido (vr. 11-32). Jesus com estas pequenas parábolas dá resposta aos fariseus e aos doutores da Lei, pois diz-nos o texto que “os fariseus e os doutores da Lei criticavam Jesus, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles!». Ao ler-mos estes três-micro relatos percebemos que o que está em comum entre eles é a necessidade e a urgência de cada um ir ao encontro daqueles que estão perdidos, mostra-nos também a alegria que surge depois de se ter encontrado o que estava perdido. A sequência narrativa começa por Jesus apresentar um exemplo do dia a dia, o caso da ovelha que se perdeu e o pastor deixas todas as outras ovelhas para ir em busca daquela que estava perdida, de seguida dá mais relevo ao que está perdido, desta vez mostra-nos uma mulher que perdeu uma dracma, uma moeda muito valiosa. Esta mulher deixou tudo o que fazia, acendeu uma lâmpada e varreu a casa, quando encontrou a moeda teve grande alegria e foi partilhar essa alegria com as suas amigas. Depois do elenque ir crescendo gradualmente termina com a parábola de um filho que saiu da casa do pai e ao regressar a casa o pai “Quando ainda estava longe, o pai avistou-o e teve compaixão. Correu ao seu encontro, abraçou-o e cobriu-o de beijos”.
No final destas parábolas percebemos que a mensagem que Jesus pretendeu passar foi a extrema importância de salvar aquilo que está perdido, de salvar os pecadores e de partilhar essa alegria com todos os outros como Jesus diz: “E Eu declaro-vos: assim, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”, “E Eu declaro-vos: os anjos de Deus sentem a mesma alegria por um só pecador que se converte” e “Mas era preciso festejar e alegrar-nos, porque este teu irmão estava morto e tornou a viver; estava perdido, e foi encontrado”. Jesus apela também para a nossa participação na missão do projecto divino, dizendo que existe alegria nos céus cada vez que cada um de nós se encontra com Deus.

Micro-relatos:
• A ovelha perdida (vr. 1-7)
• A dracma perdida (vr. 8-10)
• O filho perdido (vr. 11-32).

1 | Evangelho de S. Lucas

O Evangelho de S. Lucas

Características particulares:

Evangelho do Espírito Santo – Desde o início do seu Evangelho, Lucas realça a acção do Espirito Santo na vida e no mistério de Jesus Cristo.

Lc 1,15 – “O percursor está cheio do Espirito”.

Lc 1,35 – Maria é fecundada pelo Espirito.

Lc 1,43; 1,67; 2, 25-28 – Isabel, Zacarias e Simeão são cheios do Espírito.

Lc 3,22 – No baptismo o Espírito desce sobre Jesus.

Lc 4,1 – Jesus inicia o seu mistério publico cheio do Espírito.

Lc 4.18 – Jesus cumpre a profecia de Isaías relacionadas ao Espírito Santo.

Lc 4, 1-2; 4,14 – O Espírito capacita Jesus a suportar a tentação e vencer o mal.

Lc 10,21 – Jesus se alegra no Espírito no retorno dos setenta.

Lc 11,13; 24,49 – Jesus ensina que os discípulos receberiam o Espírito.

Ênfase no Templo – No seu evangelho, Lucas demonstra grande importância do templo, não apenas referente à ligação com os relatos da Paixão, mas também relativamente a narrativas exclusivas sobre a Natividade (Lc 1.8, 21-22; 2,27;2, 37), incluindo a visita na puberdade (Lc 2, 41-51). Após a ascensão de Jesus, os discípulos vão ao Templo.

Ministério dos Anjos – No seu Evangelho, Lucas referencia várias vezes os anjos, por mais de 20 vezes, com o intuito de acentuar a consciência da divindade da pessoa de Cristo.

Ênfase na Oração – Lucas confere à oração uma importância extrema, mais que em Mt ou Mc, no papel do ensino e exemplo de Jesus. Após Jesus ter orado, ensina aos seus discípulos um modelo de oração “Pai nosso” (Lc 11, 2-4), acrescentando duas parábolas, a do amigo insistente e a do pai bondoso, demonstrando a perseverança e a confiança (Lc 11, 5-13). Juntamente com estas duas parábolas, surgem outras duas, as quais destacam a perseverança e a humildade, a viuva importuna (Lc 18,1-8) e a do fariseu e do publicano (Lc 18, 9-14).

Em relação aos outros sinópticos, Lucas faz referência amais nove vezes que Jesus orou:

Lc 3,21 – Por ocasião de seu baptismo

Lc 5,16 – Após a cura do leproso Jesus orou no deserto

Lc 6,12 – Antes de escolher os Apóstolos

Lc 9,18 – Antes da confissão de Pedro

Lc 9,18 – Por ocasião da Transfiguração

Lc 11,1 – Antes de ensinar a oração dominical

Lc 22,32 – Antes da Paixão

Lc 23,34 – Crucificado, orou pelos inimigos e em oração pronuncia suas últimas palavras (23.46).

Evangelho do Louvor e da Alegria – Apenas em Lucas surge uma série de magníficos cânticos inspirados, presentes no Novo Testamento: o de Maria, Magnificat – Lc 1,46-55; o de Zacarias, Benedictus – Lc 1,68-79; o dos anjos, Glória in encelsis Deo – Lc 2,14; o de Simeão, Nunc dimittis – Lc 2,29-32. A alegria é expressa nestes cânticos, sendo que Jesus também se exulta de alegria (Lc 10,20) e leva os seus discípulos a se alegrarem também (Lc 10,20). Lucas constata que o povo se alegrava quando Jesus realizava as suas maravilhas (Lc 13.17; 19.37).

No final do seu Evangelho, Lucas mais uma vez declara a alegria existente, presente nos discípulos que se encontravam de volta a Jerusalém, para louvar a Deus no Templo (Lc 24, 52).

Evangelho dos Pobres e Abandonados – O Evangelho S. Lucas, destaca a especial atenção que Jesus tem para com os pobres e rejeitados. Em muitas passagens Lucas evidencia a riqueza e a pobreza, e o contraste existente entre elas:

Lc 1,48-52 – Maria, uma mulher pobre e simples.

Lc 2,7 – Nascimento de Jesus numa estrebaria.

Lc 2, 8-12 – O nascimento é anunciado primeiramente, aos pobres pastores.

Lc 2,24 – Seus pais cumprem a Lei oferecendo a oferta dos pobres.

Lc 3, 10-14 – João baptista ensina uma atitude simples e pobre.

Lc 4,18-21 – No seu primeiro discurso, Jesus declara que veio “anunciar a Boa Nova aos pobres”

Lc 12, 16-21 – Jesus apela na parábola para o perigo de confiar nas riquezas.

Lc 12,33 – Jesus apela aos discípulos para que tenham uma vida simples e pobre.

Lc 14, 12-14 – Os discípulos de Jesus devem evitar interesses mesquinhos e cobiçosos.

Lc 16,14 – Os fariseus criticam Jesus devido ao seu ensino sobre a pobreza, sendo que Jesus responde apresentando duas parábolas que ensinam a precariedade dos bens materiais (Lc 16, 19-31) e a necessidade de lhes dar um bom uso (16, 1-9).

Evangelho da Salvação universal – Para Lucas a principal mensagem que pretende passar ao leitor, é que Jesus não é apenas o Salvador de um povo específico, mas sim de todos os povos. Para que tal mensagem fique clara para o leitor, Lucas salienta que Jesus não é apenas o “Filho de Davi” ou o “Filho de Abraão”, mas o “Filho de Adão”, unindo assim, tanto judeus como gentios.

Várias passagens remetem para a ideia de um Evangelho de salvação universal:

Lc 13,29 – Pessoas virão de todas as nações para assentarem-se no reino de Deus.

Lc 2, 14 – Os anjos ao proclamarem a paz de Jesus incluem todos os homens.

No final do seu evangelho, Lucas reforça novamente esta ideia, através das palavras de Jesus: “Estava escrito que o Cristo devia sofrer e ressuscitar no terceiro dia dentre os mortos e que em seu nome seria pregado o arrependimento ... a todas as nações, a começar por Jerusalém” (Lc 24,46).

Evangelho das Figuras Antitéticas – Através do contraste entre as figuras, Lucas demonstra as diferentes atitudes de animo ou afectos antitéticos:

Lc 1, 11-22 / 1, 26-38 – Anjo Gabriel anuncia dois nascimentos milagrosos, sendo que Zacarias reage inicialmente com incredulidade, ficando mudo, e Maria, a qual recebe a notícia cheia de fé, levando-a a realizar um Cântico de louvor.

Lc 7, 36-50 – A pecadora que se arrependeu é apreciada, enquanto Simão, o fariseu cheio de si é repreendido.

Lc 10, 38-42 – As reacções diferentes das suas irmãs relativamente à chegada de Jesus a sua casa.

Lc 17,11-18 – Jesus cura igualmente dez leprosos, sendo que nove são judeus ingratos, e apenas um é samaritano, voltando para agradecer a Jesus, adquirindo o perdão e a salvação.

Lc 18, 9-14 – Dois homens que sobem ao templo para orar, sendo que um é um fariseu soberbo, o qual nada obtém, enquanto o outro, um publicano humilde, alcança a misericórdia.

Finalizando esta ideia, Lucas termina a narrativa, relatando o episódio dos dois presos que se encontram crucificados junto a Jesus, sendo que um permanece incrédulo e o outro arrepende-se.

Evangelho no Feminino – Lucas é o evangelista que mais destaca o papel da mulher, quer nos Evangelhos Sinópticos, quer em toda a Bíblia. Lucas coloca a mulher ao lado do homem, sendo ambos Homem e Mulher, filhos e filhas de Deus.

No seu Evangelho, Lucas confere às mulheres papeis bastante significativos. Desde o início que surgem como personagens centrais, Isabel declarada ajusta e irrepreensível, face ao seu marido. Maria, na sua bela figura, de extrema beleza, inteligência e submissão incondicional à vontade de Deus. Lucas faz inúmeras referencias a várias personagems femininas como a mulher que proclamava bem-aventura a mãe de Jesus, a mulher encurvada, a parábola da mulher que perdeu e encontrou a moeda, a parábola da viúva e do juiz iníquo, as mulheres na via-sacra.

No seu Evangelho, não só as mulheres abrem a narrativa, como também permanecem no seu fechamento, como as mulheres que permaneceram junto da cruz, sendo as primeiras a ouvir as boas novas da Ressurreição e a contemplar Jesus ressuscitado, anunciando a nova mensagem.

Lucas irá deixar bem claro que as mulheres “seguiam e serviam” Jesus, duas características importantes do discupulado. Mesmo se encontrando num ambiente hostil, elas permaneceram fiéis na sua fé e no serviço ao Messias, seguindo-O para Jerusalém, acompanhando os momentos da Paixão até à Ressurreição.