quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Análise de algumas perícopes dos Evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas

Evangelho de Marcos
O final breve de Marcos

Mc 16, 1- 8
1Passado o sábado, Maria de Magdala, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para ir embalsamá-lo. 2De manhã, ao nascer do sol, muito cedo, no primeiro dia da semana, foram ao sepulcro. 3Diziam entre si: «Quem nos irá tirar a pedra da entrada do sepulcro?» 4Mas olharam e viram que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. 5Entrando no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram assustadas. 6Ele disse-lhes: «Não vos assusteis! Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado? Ressuscitou; não está aqui. Vede o lugar onde o tinham depositado. 7Ide, pois, e dizei aos seus discípulos e a Pedro: ‘Ele precede-vos a caminho da Galileia; lá o vereis, como vos tinha dito’.» 8Saíram, fugindo do sepulcro, pois estavam a tremer e fora de si. E não disseram nada a ninguém, porque tinham medo.

O final breve do Evangelho de Marcos é um relato estranho no contexto dos Evangelhos porque não tem o relato das aparições do Ressuscitado. Como é possível um Evangelho sem falar da Ressurreição?
Em primeiro lugar é verdade que a Ressurreição de Jesus é anunciada com toda a clareza pelo jovem. Depois, em Marcos, a ressurreição é claramente proclamada: o corpo de Jesus não está onde tinha sido depositado.
A tese mais defendida não é que Marcos tenha escassez de relatos de Ressurreição, mas, pelo contrário, que o relato, e todo o Evangelho, está saturado de Ressurreição.

14O rei Herodes ouviu falar de Jesus, pois o seu nome se tornara célebre; e dizia-se: «Este é João Baptista, que ressuscitou de entre os mortos e, por isso, manifesta-se nele o poder de fazer milagres»; 15outros diziam: «É Elias»; outros afirmavam: «É um profeta como um dos outros profetas.» 16Mas Herodes, ouvindo isto, dizia: «É João, a quem eu degolei, que ressuscitou.» (Mc 6, 14-16)

Aqui temos algo importante: está-se a fazer um debate acerca de Jesus e da sua acção e, no meio desta inquietação, Herodes diz uma frase que parece fora do contexto. A conclusão é errada, mas o que levanta é certo: a acção e ministério de Jesus, no plano narrativo, levam-nos a uma linguagem da ressurreição. O vocabulário da ressurreição está aqui claramente presente. Mas veja-se também Mc 9, 26-27:

26Dando um grande grito e sacudindo-o violentamente, saiu. O jovem ficou como morto, a ponto de a maioria dizer que tinha morrido. 27Mas, tomando-o pela mão, Jesus levantou-o, e ele pôs-se de pé.

Um sentido que se pode encontrar para este final abrupto é que a Ressurreição valida a Cruz, é a validação definitiva e escatológica do gesto da Cruz, que é momento máximo da revelação de Jesus. Mesmo após a sua Ressurreição, o ressuscitado é o crucificado: «Buscais a Jesus de Nazaré, o crucificado?».
Por outro lado, este final fala claramente da necessidade do regresso à Galileia: «Lá me vereis».
É algo que já tinha aparecido no Evangelho: Temos uma primeira referência à Galileia em Mc 1, 14-16:
14Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia, e proclamava o Evangelho de Deus, 15dizendo: «Completou-se o tempo e o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho.»

Mas também no início das negações de Pedro em Mc 14, 27-28:
Jesus disse-lhes: «Todos ides abandonar-me, pois está escrito: Ferirei o pastor e as ovelhas hão-de dispersar-se. 28Mas, depois de Eu ressuscitar, hei-de preceder-vos a caminho da Galileia.»”

Assim, o anúncio do final breve de Marcos não é só feito pelo jovem, mas já o próprio Jesus o tinha feito. Encontramos assim uma inclusão de carácter proléptico que encontra agora a sua explicitação.
Um dos aspectos mais intrigantes é o silêncio das mulheres. Mas ele representa um não fechar da narrativa, o que confronta o leitor com a necessidade da interpretação, pois tudo tem de ser reinterpretado. O livro começa na Galileia e aí acaba. O leitor termina o livro e começa-o de novo.

Evangelho de Mateus
Final do Evangelho: a acentuação do discipulado

Mt 28, 16-20
Os onze discípulos partiram para a Galileia, para o monte que Jesus lhes tinha indicado. Quando o viram, adoraram-no; alguns, no entanto, ainda duvidavam. Aproximando-se deles, Jesus disse-lhes:«Foi-me dado todo o poder no Céu e na Terra. Ide, pois, fazei discípulos de todos os povos, baptizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a cumprir tudo quanto vos tenho mandado. E sabei que Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos.»

Esta parte final do Evangelho de Mateus ilumina todo o Evangelho. De facto, o tópico do discipulado é um tema chave em Mateus, que nos leva ao coração do próprio Evangelho. Não é por acaso que a última palavra de Jesus é o mandato de fazer discípulos. Mt é o único Evangelho em que Jesus manda fazer discípulos. O imperativo final é, pois, o programa que Jesus transmite aos seus discípulos.
O que significa este “fazer discípulos”, que nos aparece antes de baptizar? Significa fazer pessoas que guardem a palavra de Jesus, que recebam os ensinamentos. Guardar é colocar diante dos outros e trazer consigo, é guardar de forma explícita no seu coração. O discípulo é aquele que guarda e cumpre a Palavra de Deus. Fazer discípulos é então fazer alguém que guarda e cumpre os cinco grandes discursos de Jesus, pois os cinco discursos de Jesus são o material para a pregação dos Apóstolos.
É pois um Evangelho com um carácter didáctico, uma verdadeira escola cristã, onde surgem discípulos. É o Evangelho mais extenso, atravessado por uma preocupação pedagógica, de uma forma muito sistemática.
Alguns pormenores textuais reforçam este entendimento, como emprego do verbo “fazei discípulos”, que aparece quatro vezes no Novo Testamento, e dessas quatro, três surgem em Mateus. Aqui surge enfaticamente com o sentido de imperativo. Para além disso, o substantivo discípulo aparece 261 vezes no Novo Testamento, mas é em Mateus que essa palavra é mais recorrente. Daqui podemos inferir que o tema do discipulado, semanticamente, é um tema predominante em Mateus. A grande ordem é a de fazer discípulos.
Mas coloca-se a pergunta sobre o significado do «Ide»: para onde? Qual o objecto e destino deste caminho? Aparecem-nos quatro vezes, no interior do Evangelho, uma situação idêntica, que pode trazer uma nova luz a esta questão.
Mt 25, 32:
Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos.
Mt 24, 14:
Este Evangelho do Reino será proclamado em todo o mundo, para se dar testemunho diante de todos os povos. E então virá o fim.»
Mt 24, 9:
«Então, irão entregar-vos à tortura e à morte e, por causa do meu nome, todos os povos irão odiar-vos.

Percebemos assim que o mandato de Jesus é um mandato e apelo à universalidade. A abertura é total. Já em Mt 10, Jesus havia enviado os discípulos em missão. Mas aqui, em Mt 28 há um mandato universal.
A questão do Baptismo é igualmente importante em Mt. O que significa baptizar? Não se trata do baptismo de João, mas de um baptismo novo, que só Cristo é capaz de dar e transmitir. Há aqui também um carácter trinitário, como se a Santíssima Trindade se associasse à acção dos Apóstolos da Igreja.
O próprio lugar onde decorre a cena é também pleno de significado: foi na Galileia que pela primeira vez ressoou a palavra “Reino de Deus”; foi sobre o monte que haviam sido proclamadas as bem-aventuranças, e agora é lá que torna a falar Cristo Ressuscitado. Há pois uma continuidade muito grande: o monte é o Sinai, Jesus é o Novo Moisés, as Bem-aventuranças são a Nova Lei, no monte Jesus fala com autoridade. Temos aqui então um diálogo de paradigmas, de tipologias.
A autoridade com que Jesus fala sobressai nesta perícope, pois as próprias palavras de Jesus são uma manifestação de autoridade. Alguns autores afirmam que esta passagem de Mateus é o cumprimento de Dn 7, 13-14:
Contemplando sempre a visão nocturna, vi aproximar-se, sobre as nuvens do céu, um ser semelhante a um filho de homem. Avançou até ao Ancião, diante do qual o conduziram. Foram-lhe dadas as soberanias, a glória e a realeza. Todos os povos, todas as nações e as gentes de todas as línguas o serviram. O seu império é um império eterno que não passará jamais, e o seu reino nunca será destruído.»

Mas o Evangelho de Mateus supera a profecia de Daniel, pois há um carácter de definitividade, no poder e autoridade recebidos, pois agora é de uma vez para sempre. O “todo” não está confinado a restrições, é um poder completo e total. O Cristo que aparece no final do Evangelho surge com a autoridade plena, típica da dicção de Mateus. Mas, aqui a autoridade é adjectivada, pelo que tem mais densidade.
O que Jesus faz garantir o seu poder e autoridade? Garante a sua presença aos discípulos. «Estou convosco até ao fim dos tempos». O “Estou convosco” é uma expressão teofânica com ressonâncias Veterotestamentárias usada por Deus em muitas situações em que intervém. O Deus do Antigo Testamento é um Deus que está com os personagens que escolhe até que a missão se realize. Há uma alusão clara ao “Emanuel”, segundo o recurso da inclusão, que é um aspecto muito importante no Evangelho de Mateus, como por exemplo em Mt 1, 23: Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho; e hão-de chamá-lo Emanuel, que quer dizer: Deus connosco. Mateus é, assim, o “Livro do Emanuel”.
Evangelho de Lucas
Os discípulos de Emaús
Lc 24, 13-36
13Nesse mesmo dia, dois dos discípulos iam a caminho de uma aldeia chamada Emaús, que ficava a cerca de duas léguas de Jerusalém; 14e conversavam entre si sobre tudo o que acontecera. 15Enquanto conversavam e discutiam, aproximou-se deles o próprio Jesus e pôs-se com eles a caminho; 16*os seus olhos, porém, estavam impedidos de o reconhecer.17Disse-lhes Ele: «Que palavras são essas que trocais entre vós, enquanto caminhais?» Pararam entristecidos. 18E um deles, chamado Cléofas, respondeu: «Tu és o único forasteiro em Jerusalém a ignorar o que lá se passou nestes dias!» 19Perguntou-lhes Ele: «Que foi?» Responderam-lhe: «O que se refere a Jesus de Nazaré, profeta poderoso em obras e palavras diante de Deus e de todo o povo; 20como os sumos sacerdotes e os nossos chefes o entregaram, para ser condenado à morte e crucificado. 21*Nós esperávamos que fosse Ele o que viria redimir Israel, mas, com tudo isto, já lá vai o terceiro dia desde que se deram estas coisas. 22É verdade que algumas mulheres do nosso grupo nos deixaram perturbados, porque foram ao sepulcro de madrugada 23e, não achando o seu corpo, vieram dizer que lhes apareceram uns anjos, que afirmavam que Ele vivia. 24Então, alguns dos nossos foram ao sepulcro e encontraram tudo como as mulheres tinham dito. Mas, a Ele, não o viram.»25Jesus disse-lhes, então: «Ó homens sem inteligência e lentos de espírito para crer em tudo quanto os profetas anunciaram! 26*Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na sua glória?» 27*E, começando por Moisés e seguindo por todos os Profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que lhe dizia respeito. 28Ao chegarem perto da aldeia para onde iam, fez menção de seguir para diante. 29*Os outros, porém, insistiam com Ele, dizendo: «Fica connosco, pois a noite vai caindo e o dia já está no ocaso.» Entrou para ficar com eles. 30*E, quando se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho. 31Então, os seus olhos abriram-se e reconheceram-no; mas Ele desapareceu da sua presença. 32Disseram, então, um ao outro: «Não nos ardia o coração, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?» 33Levantando-se, voltaram imediatamente para Jerusalém e encontraram reunidos os Onze e os seus companheiros, 34*que lhes disseram: «Realmente o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão!» 35E eles contaram o que lhes tinha acontecido pelo caminho e como Jesus se lhes dera a conhecer, ao partir o pão.

Este relato de Lucas funciona como um micro-evangelho, uma espécie de síntese de todo o Evangelho.
Lucas desenha nesta perícope a experiência pascal da comunidade cristã. Todos os acontecimentos são colocados no quadro de um dia - o dia pascal - pois todos eles encontram na Páscoa a sua fonte, a sua razão de ser. O Evangelista Escolhe dois discípulos quase anónimos, figuras menores no quadro de construção do Evangelho, mas a quem Jesus aparecer e com quem faz a experiência pascal. Querendo dizer, desde logo, que não há figuras secundárias.
O autor conta-nos Jesus em três andamentos: encontro; palavra; casa / mesa.
Os discípulos saem de Jerusalém e realizam um encontro com Jesus. Valoriza-se a dimensão narrativa, não tanto o que Jesus diz, mas o que Ele faz, abrindo canais e deixando-se encontrar. Noutras passagens do Evangelho vemos como Jesus é um Mestre na arte do encontro, como no caso da mulher adúltera e de Zaqueu. Encontrar Jesus é então ser encontrado por Ele.
Os discípulos partem de Jerusalém e voltam a Jerusalém. Fazem o movimento de passar pelas três categorias. No encontro Jesus é um desconhecido, alguém que faz arder o coração; mas em casa e na mesa Jesus é reconhecido.
A mesa, em Lucas, é o lugar do reconhecimento de Jesus, da revelação de Jesus. O sentido da universalidade de Lucas faz com que tenha em mente o simpósio, a refeição literária grega, constituída pela comida e pelo topos (beber). A mesa tem um pacto narrativo, estabelece um protocolo narrativo. Comer é um acto humano, antropológico, e não meramente físico, por isso à mesa não se sentam estranhos.
O Evangelho de Lucas privilegia verdadeiramente a mesa e a casa como espaço privilegiado onde a identidade de Jesus nos é revelada. A casa de Emaús é a última casa onde vemos Jesus, mas há muitas outras anteriormente e são muitas as secções onde sobressai o destaque à casa e à mesa.
Logo no Evangelho da Infância começa com a Anunciação, até à entrada na primeira casa por parte de Jesus: a casa de Isabel. Por isso, o relato do nascimento é importante. Jesus nasce num estábulo e tudo está construído para dar relevo à manjedoura, lugar onde os animais comem. A manjedoura é assim importante para a definição do campo semântico da mesa, pois é o lugar da alimentação dos animais, ou seja, dos impuros. A manjedoura antecipa aquilo que é o tema principal de Lucas: a salvação e a sua universalidade.
Em Lc 7, 36-37 vemos também um fariseu que convida Jesus para comer consigo, o que não acontece nos outros Evangelhos. Lucas é ó único que situa este acontecimento num espaço de refeição e é o único que fala do convite dos fariseus. De facto, o grande momento de vida dos fariseus era a mesa e convidar um profeta para a mesa era um privilégio. Contudo, nunca há coincidência entre Jesus e o anfitrião, há sempre uma tensão.
Lucas começa e termina no Templo, mas o Evangelho constrói-se sobretudo na casa, lugar da revelação de Jesus. A casa é o lugar do habitual, do comum, do profano e do quotidiano. A dimensão da casa é, em Lucas, expressa em torno da mesa.
Porque é que Lucas dá tanta importância à refeição? Não é só porque sabe do seu valor antropológico, nem só porque conhece as categorias helénicas. O alimento tem um papel de primeiro plano na história da salvação como se percebe a partir dos escritos Vetereo Testamentários: o primeiro mandamento de Deus é um mandamento alimentar (não comer da árvore de fruto)
O banquete é o símbolo da tradição escatológica, e servirá de imagem para as parábolas de Jesus, pois sabe que uma refeição em Israel tem um determinado significado. A refeição quotidiana é uma imagem da refeição definitiva. Há assim um peso metafórico da tradição bíblica que faz com que Jesus escolha estrategicamente a casa.
A casa nunca é um lugar neutro: entrar em casa de alguém supõe relação, conhecimento, amizade e Jesus vai utilizar isso para estratégia da sua própria revelação. O campo semântico da refeição / comensalidade segue pois nesta linha. Não são tanto as comidas que estão em jogo, mas sim o banquete. Essa linha começa quando Jesus come pela primeira vez no Evangelho - Lc 5, 27–32 “Vocação de Levi” - e de uma forma que causa imediatamente problemas. É uma refeição comprometedora, pois Levi poderia ter escolhido um local neutro, mas convida-O para sua casa. Penetrar na casa é, assim, comprometer-se, é correr o risco de um compromisso existencial.
Por tudo isto podemos afirmar que em Lucas há verdadeiramente uma teologia da refeição, e essa é uma das linhas semânticas mais significativas de todo o Evangelho.


Análise da História e Discurso no relato da “Ressurreição da filha de Jairo” dos Evangelhos Sinópticos

Mt 9, 18-19 - 23-26
Mc 5, 21-24 – 35-43
Lc 8, 40-42 – 49-56

Os três Evangelhos Sinópticos contam a história da “Ressurreição da filha de Jairo”. Falam-nos de um “chefe”, que Marcos e Lucas dizem ser da sinagoga, que prostrado aos pés de Jesus lhe implora pela cura da filha. Jesus dirige-se a casa dele e encontrando um grande “alarido” pela morte da menina, repreende os presentes, dizendo-lhes que ela não estava morta mas simplesmente a dormir. Fora dos olhares da multidão, Jesus toma a mão da menina e esta ergue-se.

Se no essencial é esta a história narrada, já quanto ao discurso, ou seja, ao modo como a história é contada, existem grandes variações entre os três Evangelhos. Essas diferenças são muito evidentes sobretudo entre o relato de Mateus e os relatos de Marcos e Lucas. Contudo, mesmo entre os dois últimos podemos encontrar variantes no modo como a história é contada.
Mateus não se detém no que não é essencial para relatar o milagre realizado por Jesus, descrevendo a cena com grande economia de meios: interessa-lhe contar a vida de Jesus e, como tal, pôr em evidência o poder e a autoridade do Cristo. Por isso não nos indica qual o nome do pai da criança e diz-nos apenas que era um “chefe”. Na cena dentro da casa, o Evangelista é também parco de informações, não deixando contudo de referir que no seu interior estavam “flautistas” e uma multidão em grande alarido, descrição aparentemente secundária, mas fundamental para vincar a factualidade da morte física da menina e assim evidenciar ainda mais o carácter sobrenatural da acção de Jesus.

Em Marcos e Lucas o objectivo é também dar-nos a conhecer Jesus e pôr em evidência o poder e a autoridade do Cristo. Contudo, fazem-no com matizes diferentes, com uma narrativa muito mais desenvolvida, mais descritiva, repleta de pormenores, como que transformando o leitor em testemunha da própria cena: «Jesus foi recebido pela multidão»; «ao vê-lo, prostrou-se a seus pés e suplicou instantemente»; «Ainda Ele estava a falar».

Introduzem neste relato também a temática do discipulado e da fé, que é condição para se ser discípulo e para ser contado entre os seus “eleitos”, os que entram no interior da casa: «E não deixou que ninguém o acompanhasse, a não ser Pedro, Tiago e João, irmão de Tiago», ou «Não tenhas receio; crê somente e ela será salva.»

Ambos sublinham o carácter extraordinário da acção de Jesus, referindo o «assombro» e o espanto dos que tomaram conhecimento do sucedido.
Marcos, um pouco mais sucinto do que Lucas, mas grande mestre na arte de contar, introduz um elemento único nos três Evangelhos, transliterando as palavras de Jesus em aramaico, o que imprime grande realismo e vivacidade à cena: «Tomando-lhe a mão, disse: «Talitha qûm!», isto é, «Menina, sou Eu que te digo: levanta-te!».

Lucas, por seu lado, fornece-nos muitas informações adicionais, imprimindo um grande colorido à narrativa, que se desenrola frente aos nossos olhos. Logo no início diz-nos que a multidão estava «à sua espera», como que ansiosa por ver Jesus e que a menina era «filha única», o que acentua o carácter dramático da cena. Diz-nos também que a multidão aglomerava-se e apertava Jesus «a ponto de o sufocar». Já no interior da casa, introduz na cena a mãe da criança, que reforça o carácter intimista e familiar da cena, dizendo ainda que Jesus «chamou-a, dizendo em voz alta: Menina, levanta-te!»», como se o próprio leitor estivesse a ouvir Jesus.
Evangelho de Lucas
O Evangelho de Lucas abre com os textos da infância de Jesus. Aqui. O ponto de vista é o de Maria. A anunciação contém afirmações máximas de Jesus, que depois não são retomadas mais. De facto, o Evangelho da infância é uma espécie de guia proléptico de todo o Evangelho.
A partir de vida pública de Jesus, já são só aqueles têm Fé que fazem afirmação sobre Jesus. E são sempre as pessoas mais inconvenientes a testemunhar Jesus: os doentes, pecadores, …
O modo como Jesus fala e actua permitem lançar a luz para a compreensão de quem ele é. Por isso, no macro-relato tudo se orienta para a revelação da pessoa de Jesus. Lucas é um relato de revelação.
E que o magistério de Jesus é muito diferente do dos seus predecessores. Ele é um mestre singular e tem autoridade que lhe vem dele próprio, escolhendo os seus discípulos em seu próprio nome.
Esta questão da autoridade é fundamental pois o judaísmo do tempo de Jesus vivia uma profunda crise de autoridade. Ora no seio dessa crise emerge Jesus a reivindicar autoridade.
Em Lucas 20,1.8, Jesus esta no templo, espaço da autoridade por excelência, e é confrontado com a questão da autoridade. Mas Jesus não lhes revela de quem vem a sua autoridade, mas o leitor sabe que ela vem de Deus, não porque Jesus no-lo diga, mas porque as suas acções e obras o manifestam: curas de doenças, expulsões de demónios, autoridade taumaturga sobre a natureza e sobe a morte, etc.
Como tal, estes milagres não são magia, mas acontecem pela força da palavra de Jesus. E pela Fé, o crente experimenta o Reino de Deus, pois Jesus não se fica pela cura. Assim o milagre é m episódio de Fé.
Os milagres são sinal da inserção de Reino de Deus na história, que está doente. Os milagres são renovação escatológica do real e apontam para o futuro. Por isso aqueles que Jesus curou são sinal e garantia de futuro.
Em Lucas, Jesus aparece como Mestre e todos estão de acordo sobre isso. Por isso Jesus aparece a ensinar e há quem o escute (conferir 4,15; 11,1; 9,14; 10,39).
E então Lucas constrói a pessoa de Jesus tentando hipóteses:
Jesus aparece como subversor:”encontramos este homem subvertendo a nossa nação” (lc23,2). Jesus coloca-se em linha de colisão com as autoridades. Ele esvazio o papel do templo, substituindo-o no perdão dos pecados (conferir Lc.13,34-45; 19,41-44; 21,20-44).
É que Jesus não se limita às fronteiras judaicas mas alarga-se e por isso é acusado de violar o sábado, não respeitar os jejuns, conviver com publicanos e pecadores, etc.
Assim, Lucas mostra que Jesus vai Às situações concretas e limites para as transformar. Lucas quer que Jesus seja entendido como o grande transformador, como revelador de um Deus actua hoje e transforma o concreto das vidas.
Jesus aparece também como o profeta. Em Lucas 4,16-30 Jesus compara-se com o paradigma profético, e cita Elias e Eliseu, porque foram os dois únicos profetas que fora, unidos, com Jesus o será.
Se em Marcos e Mateus há uma identidade entre Elias e João Baptista (ele «é o Elias que estava para vir» Mateus 11,14) em Lucas não temos esse paralelismo. Isto porque Lucas concede a João Baptista uma função muito restrita, a de cultivar a expectativa pelo tempo iminente do julgamento. Assim, para Lucas, o novo Elias não é João mas o próprio Jesus, profeta.
Mas que tipo de profeta vê a multidão em Jesus?
Em Lucas 7,16 temos «um grande profeta» Óscar Cullmann afirma que estes adjectivos não eram aplicados ao messias escatológico, pelo que Jesus era ainda incluído na linhagem dos profetas antigos.
Segue-se depois o episódio da pergunta da João Baptista e da refeição em casa do fariseu.
A pergunta de João Baptista é saber se Jesus é o profeta escatológico, o que estava para vir, ou se era apenas mais um profeta. E a resposta de Jesus não é uma definição sobre a sua pessoa, mas ma cristologia narrativa, uma definição sobre si próprio que se constrói a partir dos efeitos das suas acções e gestos, usando termos de Isaías:«os cegos vêem, os coxos andam, etc» (Lc7,22). Cinco milagres, mais os pobres que são evangelizados, em jeito de remate final.
E Jesus conclui com um macarismo, que naturalmente aponta para a escatologia (Lc7,23)
Lucas quer também mostrar que Jesus é o novo Moisés.
Em Lucas 13,33, Jesus assume-se como profeta, mas mesmo aqui esse título tem apenas uma natureza funcional. E a própria acção de Jesus põe vezes em causa esse título de profeta. Assim, a categoria de profeta é importante para perceber Jesus, mas é tb insuficiente. Em Lucas, são várias as categorias para falar de Jesus (mestre, profeta, taumaturgo) mas o que é decisivo é apresentar Jesus como o salvador.
Lucas é o Evangelho da Salvação.
Evangelho de Marcos
Este é o Evangelho pleno de suspence, que não sabemos como vai acabar. O Jesus de Marcos é desconcertante e surpreendente. Este evangelho é uma encenação entre o Bem e o Mal, o triunfo e o fracasso (assim a entrada de Jesus em Jerusalém é um triunfo que acaba na cruz). Estão em causa a morte e a vida, todo o destino humano. Por isso o Evangelho não é apenas um colecção de episódios ou de moral.
Papias no século II atribui este Evangelho a João Marcos, citado como filho de Pedro (“Marcos, meu filho” in 1Pe5,13). Teria sido escrito em Roma pela década de 60, por um discípulo próximo de Pedro.
É um evangelho escrito tanto para judeus como para gentios. Por isso muitas palavras estão no texto traduzidas do aramaico para o grego. Por outro lado também não sente necessidade de explicar, por exemplo, quem os fariseus eram, supondo que o leitor o entenderia.
O Evangelho não é uma biografia. Tem um certo interesse biográfico da pessoa de Jesus mas falta informação sobre alguns aspectos e detalhes. Por isso é diferente das “vidas Paralelas de Plutino”, escritas também por esta altura.
O Evangelho tem também algo de tragédia: a morte de um inocente. E no entanto não é uma tragédia.
Tem igualmente um estilo de novela, mas também não é uma novela, pois se por vezes se serve dessa forma de contar, a sua base e objectivo é outro: não é entretenimento mas comunicação de uma experiencia de vida.
Tem igualmente parábolas mas não é uma parábola, e midrash sem ser midash.
Assim, o Evangelho é um género literário totalmente novo. Evangelho é a proclamação de que Jesus é o Cristo. O Evangelho conta uma transformação, pois só onde há composição consistente, unitária, coerente e com uma estratégia directiva.
O narrador de Marcos é extradiegético e omnisciente: está fora da história mas sabe tudo. Narra todos os detalhes e pensamentos dos personagens, de modo que o leitor +é mais privilegiado que as personagens.
Com esses apartes, o texto vai ganhando a confiança do leitor. Esta é uma estratégia que se revela decisiva ara o narrador poder depois falar ao leitor da ressurreição de Jesus. É que o narrador procura preparar o leitor para ajudá-lo a aceitar o que é difícil: a ressurreição. Assim, o leitor vai construindo um horizonte sobre o final de Jesus.
Por exemplo, Marcos conta detalhadamente a morte de João Baptista, porque esta prepara o leitor para a morte de Jesus. E tudo o que Jesus anuncia se vai cumprindo, dando-lhe credebilidade.
Marcos compõe ainda um Evangelho muito visível: a escrita ganha muita vida porque os episódios são breves e sucedem-se rapidamente. Marcos recorre muito ao uso de “e” e aos particípios. Temos muita acção. Apenas tem dois monólogos (mc.4,1-33 e Mc.13,1-37) porque Jesus é sobretudo alguém que actuam, maisdo que fala.
A acção está dividida em dois momentos: o ministério de Jesus na Galileia (cap.1 a 10) e em Jerusalém (cap.11-16).
Ora na Galileia temos sempre um espaço muito definido (“algures”, “no caminho”), mas em Jerusalém sabemos sempre onde a acção decorre. Na Galileia a temporalidade é lenta e simbólica. Em Jerusalém as horas são referidas e sucedem-se.
Marcos serve-se ainda da recursos de grande satisfação repetindo detalhes a fim de que o leitor fixe determinada mensagem:
.”Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” Mc1,1
.”Tu és o Cristo” (Pedro) Mc8
.”É verdadeiramente o Filho de Deus” (centurião) Mc.15,3
Marcos erve-se também de cenas tipo, em especial oos relatos de milagres, composto por vários pontos:
1- abeirar-se;
2- petição;
3- vencer um obstáculo coom forma de revelar a Fé;
4- acção de Jesus que toca ou pronuncia palavras;
5- o efito;
6- a recepção
Estes pontos são muito úteis para o leitor, pela sua simplicidade e pedagogia.
Marcos usa também episódios-colchete: Mc.12,41 e Mc.14-3.
A mulher também ela foi extravagante. Depois a viúva deu para o templo, e a mulher deu para o tempo que é Jesus.
Usa também cenas em sanduwish.
Marcos também usa muito a progressão em três passo, para mostrar que com Jesus as coisas têm sempre um meta-significado.
Mc.14: Jesus reza três vezes e por três vezes encontra os discípulos a dormir
Mc.15:Pilatos interroga três vezes a multidão, que recusa três vezes
Mc.15,25:Era a hora terceira
Mc.15,33: até à hora nona a terra teve três horas na escuridão
Temos ainda 3 relatos vocacionais, 3 conflitos na barca e 3 anúncios da morte de Jesus. Assim o que começa no 1 deve cumprir-se no 3. Por Marcos é tido também como o Evangelho do caminho.
E de facto, Marcos vai desta forma fazendo caminho com o leitor. O texto tem assim uma pedagogia de credibilidade em relação ao seu leitor.
Por outro lado, são muitas as perguntas que em Marcos não tem resposta, criando um texto mais aberto para o leitor ir caminhando sempre de pergunta em pergunta. São perguntas sem resposta, que implicam e comprometem o leitor com o texto (Mc4,40). Outras vezes, Jesus responde a uma pergunta com outra pergunta (Mc.12,10-11; Mc.12,14-16). Isto cria no texto uma tensão revelatória essencial para o leitor.
Depois, Marcos é muito realista. O cenário do mundo tem doenças, morte e sofrimento. O Evangelho conforta-se com um mundo em que os homens não estão felizes. Mas aos poucos o tempo vai sendo preparado a partir do tempo teológico da salvação “cumpriu-se o tempo, avizinha-se o reino de Deus”.
E ao longo do Evangelho, Jesus percorre esse mundo todo, nunca se fixando senão em Jerusalém. Na Galileia muda de lugar 40 vezes até que chega a Jerusalém, pois é para lá que todo o Evangelho aponta: para o ligar da luz.




Evangelho de Mateus

É o primeiro do Cânon porque é tido como o Evangelho por excelência. Teve grande acolhimento na Igreja primitiva, pois fala também das relações entre a Igreja e o mundo Judaico.
Terá sido escrito nas décadas de 80/90, após a destruição do templo, de Jerusalém, tal como parece sugerir o Capitulo 24.
Após a destruição do templo, o judaísmo vai renascer em torno da academia de Jamnia, graças a Joaquim Ben. Ora este judaísmo vai opor-se ferozmente ao cristianismo, que tinha sido neutro na guerra contra os romanos.
Então Mateus escreve este Evangelho em jeito de resposta aos judeus. Por isso mostra a Igreja e os cristãos como o novo Israel. No entanto para não limitar o Cristianismo, ás fronteiras do Judaísmo, Mateus também não estabelece um paralelismo absoluto. Assim, vemos que em Mateus nada é por acaso.
Mateus é portanto escrito como apologia de Jesus e da experiência cristã contra o judaísmo saído de jamnia, que acusava os cristãos de não terem defendido Jerusalém nas guerras judaicas contra os romanos, o que de facto aconteceu porque:
-os cristãos esperavam a vinda de Jesus, a parousia, pelo que a destruição de Jerusalém era sinal dessa vinda escatológica, e por isso a destruição era inevitável.
-a esperança dos cristão era diferente da dos judeus.
-o cristianismo tinha já uma consciência universal, não se limitando ao universo judeu.
-os cristãos reproduziam o modelo de profeta Jeremias aquando do ataque de Babilónia, e tal como o profeta confortavam-se com a história.
-os cristãos não queriam fundar no judaísmo a sua identidade, mas em Jesus. A Igreja era agora as antigas doze tribos de Israel, pelo que não havia razão para lutar pelo antigo: a Igreja de Jesus é que era o herdeiro de Israel.
Assim, Mateus é um Evangelho escrito num contexto delicado. Era preciso associar a noção judaica de Messias com a ideia de cruz, sinal de maldição para os judeus.
Não bastava falar de Jesus ás gerações seguintes, mas defende-lo dos ataques e mentiras do judaísmo. Como tal, Mateus precisava de mostrar que Jesus não era um embusteiro, mas que tinha um passado que o certifica e lhe dá credibilidade. Por isso o Evangelho abre com a genealogia de Jesus, para mostrar que Jesus está na linhagem de David: Jesus é o novo David.
Para reforçar a relação de Jesus com a tradição judaica, Mateus apresenta ainda cinco mulheres nessa genealogia: Tamor, Roab, Rute, a mulher de Urias, e finalmente, Maria. As quatro mulheres conceberam e eram à luz de uma maneira especial, pelo que assim a virgem Maria que concebe ganha outra verosimilhança. Mateus mostra assim que o nascimento de Jesus de Maria não é uma farça, e que casos parecidos aconteceram já na história de Israel.
E Mateus fala três vezes de 14 gerações porque Jesus é três vezes David. A relação que Mateus estabelece com o Antigo Testamento passa também pelo uso de síncrise: construção de um personagem em paralelo com outro personagem. Assim temos José em oposição a Herodes. Mateus mostra que, tal com Saul se tinha revoltado contra David, também Herodes se volta contra Jesus, qual novo David. É uma actualização do livro dos Reis.
Também a fuga para o Egipto serve para actualizar o Antigo Testamento, segundo a profecia de Oseias 11,1.
No capitulo 2, Mateus relata a vinda dos reis magos, mostrando que antes mesmo de Jesus falar, já havia quem o procurasse. E foram juntos de Herodes, Ora não se vai junto do rei a propósito de qualquer um, pelo que Mateus reforça assim a importância de Jesus.
Os sábios do rei Herodes vão ainda ás Escrituras e identificam lã a geografia do nascimento de Jesus, reforçando a sua importância, pois até as Escrituras já se referiam ao nascimento de Jesus.
E se Jesus era uma ameaça para Herodes, é porque Herodes sabia bem quem era Jesus. Desta forma, Mateus mostrava aos judeus que não adiantava esconderem quem Jesus era, pois até o próprio Herodes o tinha logo reconhecido.
Jesus também regressa do Egipto, tal como outrora o povo de Israel tinha saído do Egipto pela mão de Deus: assim, Mateus mostrava que com Jesus começa o novo povo de Deus.
Finalmente, Jesus é o Nazareno. Três hipóteses para tal:
-pode derivar não de Nazaré, mas de Nazir--consagrado
-ou de Nezer--rebento, conferir Isaías ”nascerá um rebento”
-ou de Nasar--guardar, conferir Isaías “há-de guardar em seu coração”
Desta forma, vemos que o Evangelho de infância de Jesus constitui uma chave de leitura para toda a vida de Jesus. É um guia proléptico para acompanharmos Jesus.
Mateus relê a história de Israel, colocando Jesus no centro. È uma hermenêutica cristã da historia de Israel, em que cada elemento se reveste de segundos sentidos.
Mateus mostrava assim ao judaísmo que Jesus vinha na continuação da tradição judaica, e que põe isso não o poderiam negar. Através duma prosa tão encantadora que é o Evangelho da infância, Mateus elabora toda uma teologia de combate contra o judaísmo em defesa de Jesus.
Também por isso, ao longo de todo o Evangelho, Mateus cita muito o Antigo Testamento.
Tal como os cinco livros da Thorah, Mateus reproduz cinco discursos de Jesus: Sermão de Montanha e Anuncio de Reino; Discurso de missão; Parábolas; Discurso eclesial; Discurso escatológico.
Divisão da obra em três partes: Mateus 1,1; Mateus 4,17; Mateus 16,21
Divisão em seis partes:
1- Introdução 1,1-4,22
2- Jesus, poderoso em palavras e obras4,23-9,35
3- Envio dos discípulos 9,36-12,50
4- Formação dos discipulos13,1-17,27
5- Rutura com judaísmo18,1-22,46
6- Discurso de despedida, paixão e relatos pascais23,1-28,20




O incipit do evangelho de Lucas

1Visto que muitos empreenderam compor uma narração dos factos que entre nós se consumaram, 2como no-los transmitiram os que desde o princípio foram testemunhas oculares e se tornaram "Servidores da Palavra", 3resolvi eu também, depois de tudo ter investigado cuidadosamente desde a origem, expô-los a ti por escrito e pela sua ordem, caríssimo Teófilo, 4a fim de reconheceres a solidez da doutrina em que foste instruído.


«(...) se o autor diz que as narrativas existentes já são numerosas e baseadas na tradição “ocular”, é que, para ele, relatar significa algo diferente de fixar por escrito uma tradição originária e oral em vias de desaparecimento.

(...) se o nosso autor se decidiu a contar, foi precisamente por existirem já narrativas autorizadas acerca dos acontecimentos de que ele próprio vai falar. Lucas conhece demasiado bem as Escrituras para ignorar que apresentam, por vezes, várias versões dos mesmos acontecimentos e que, para as diversas gerações bíblicas, o passado se mantivera objecto de constante meditação e reapropriação. O gesto de Lucas é análogo: a sua reformulação narrativa nada tem de repetição ou consignação mecânica, destina-se, sim, a comprovar uma coerência. (...) Lucas quer contar para que se conheça a solidez de coisas já sabidas e aceites. A narrativa não tem, pois, como única função informar – isso já outros fizeram antes dele –, mas também manifestar a verdade de uma vivência. A narrativa ainda não começou e o leitor já sabe que ela consistirá num longo processo de veridicção. (...) a comprovação da solidez da mensagem não é necessariamente provocada por ataques exteriores, faz parte do caminho da fé, tal como Lucas o concebe. A dinâmica da narrativa de Lucas reflecte, de certo modo, a de uma fides quaerens intellectum.

(...) Para Lucas, contar significa, de facto, manifestar a lógica de uma história, nos seus preparativos mais remotos. (...) Não qualificando a sua narrativa como «Evangelho», Lucas dá a entender que, para ele, a Boa Nova não é susceptível de se reduzir à sua (dupla) narrativa. (...) dentro da narrativa da vida de Jesus e por ela unificadas, as Escrituras são dadas a ler.»



Jean-Noël Aletti, Voltar a falar de Jesus Cristo, Ed. Cotovia, Lisboa, 1999, pp. 226-240.

Esquema Quinário

Lc 15,1-32

Situação inicial: “1.Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para O escutar”

Nó: “2. Mas os fariseus e os doutores da Lei criticavam Jesus, dizendo: «Este homem acolhe os pecadores e come com eles!”.

Acção transformadora: 3. “Então Jesus contou-lhes esta parábola: 4. Se um de vós tem cem ovelhas e perde uma, será que não deixa as noventa e nove no campo para ir procurar a ovelha que se perdeu, até a encontrar? 5. E, quando a encontra, com muita alegria coloca-a aos ombros”

Desenlace: “Chegando a casa, reúne amigos e vizinhos, para dizer: "Alegrai-vos comigo! Encontrei a minha ovelha que estava perdida"

Situação final: “E Eu declaro-vos: assim, haverá mais alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”

Classificação de personagens:

  • Cobradores de impostos e pecadores – Personagens planas, não entrevêem na história, não se transformam.
  • Jesus – É uma personagem redonda, é ele que é posto em causa, e é ele que faz o desenrolar da história através destas parábolas dando assim resposta aos fariseus e aos doutores da Lei.
  • Fariseus e os doutores da Lei – Personagens planas, pois não interferem no decorrer da história,
  • Amigos e vizinhos – Personagens planas, não entrevêem na história, não se transformam.

Enquadramento:

  • Espaço – O micro relato não define o espaço onde as personagens se encontram, apenas diz que “1.Todos os cobradores de impostos e pecadores se aproximavam de Jesus para O escutar”, podemos por a hipótese que Jesus estava num espaço amplo pois todos os cobradores de impostos e os pecadores juntavam-se para ouvir Jesus e por ali perto deviam estar também os Fariseus e os doutores da Lei pois estes aparecem a criticar Jesus, “dizendo: Este homem acolhe os pecadores e come com eles!”.
  • Tempo: Sabemos que Jesus está num ocasião rodiado por impuros.Sabemos apenas que estamos perante uma relantização do discurso, ou seja estamos perante um micro-relato contado de forma acelerado com o objectivo de se contar apenas o mais importante que é a salvação da ovelha perdida e de haver “ alegria no Céu por um só pecador que se converte, do que por noventa e nove justos que não precisam de conversão”.
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