sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Mateus
A escolha que Mt faz quando escreve o evangelho é fundamentalmente fazer uma narração. Há um vigor ético, uma exigência ética tão forte que às vezes levou a questionar se o evangelho fosse mesmo um evangelho ou um tratado de moral. Mas isto é um exagero. Para fazer esta narração centrada na pessoa de Jesus, Filho de Deus, Mt vai desde o nascimento até à Ressurreição, num relato extenso (28 capítulos) e muito marcado pelo ensinamento de Jesus, pelas acções proféticas com que Jesus vai marcando a sua missão e, enfim, pelos sofrimentos da Paixão (tem uma força dramática própria).
A linguagem de Mt não é a da argumentação, como em Paulo, nem a da visão, própria do Apocalipse. Mt conta a história de um Jesus terreno: a comunicação da fé em Jesus passa pela narração daquela vida concreta de Jesus.
Mt amplia o espaço geográfico relativamente à pessoa de Jesus. Se Mc começa com João Baptista e termina com o sepulcro vazio e o temor das mulheres, Mt começa com o nascimento de Jesus e termina com as aparições do Ressuscitado na Galileia. Também no que diz respeito à doutrina de Jesus, Mt amplia o espaço geográfico organizando o material em cinco grandes discursos: o da montanha (5-7), missionário (10), em parábolas (13), eclesial (18), escatológico (24-25). Há nisso uma pretensão: criar um paralelo entre Jesus e Moisés, que os antigos pensavam ser o autor dos cinco livros da Lei (Pentatêuco). Jesus é então o autor do Novo Pentatêuco.
Em relação ao tema, o evangelho de Mt é também chamado o do Emanuel (Deus connosco).
A história de Jesus para Mt apresenta-se como o segmento central e decisivo duma história que, a partir do presente – Jesus, começa no passado e termina no futuro. No passado, porque existe uma ligação ao A.T., sendo o evangelho uma espécie de caixa de ressonância que mais cita o A.T.; quanto ao futuro, e sobretudo quando lemos Mt 28,16-20, percebemos que há ma ligação entre o evangelho e a Igreja. Assim, Mt liga o passado de Israel ao presente de Jesus e ao futuro da Igreja.
O gosto pela organização, próprio de Mt, faz com que o evangelho fosse dividido, desde os primeiros séculos, em cinco partes. Primeiro arranque, Mt 1,1: princípio do Evangelho de Jesus Cristo, filho de Deus, filho de Abraão (algo novo). Segundo arranque, 4,17: começa o anúncio do Reino e a vida pública de Jesus. Terceiro arranque, 16,21: Jesus começa a mostrar aos seus discípulos que era preciso ir para Jerusalém; começo do evangelho da Paixão. Neste gosto de organização, são interessantes as simetrias criadas propositadamente (exemplo: Negação de Pedro por três vezes – Oração de Jesus no Getzémani, onde por três vezes foi ter com os discípulos que estavam dormindo; presença do numero sete: maldições, petições, parábolas, demónios, perdoar setenta vezes sete; etc.).
O que mais o caracteriza é o ambiente de crise do judaísmo em que ele se insere e pela ruptura que resulta do anúncio do Reino. Por exemplo, a relação que Jesus tem com os fariseus em Mt não tem nada a ver com a que mostra Lc. Aqui há uma ruptura clara, não há convívios nem refeições em conjunto. Porque? O judaísmo com que Jesus se confronta no evangelho não é o judaísmo que Jesus conheceu no tempo da sua vida terrena. Ao tempo de Jesus o judaísmo estava dividido em vários partidos: Saduceus, Essénios, Fariseus, Zelotas. Há portanto nesta altura uma clara crise da autoridade. Mas o judaísmo com que se confronta o evangelho de Mt não é este mas o de pós 70, o da destruição do Templo. O judaísmo que daí vai surgir não é o sacerdotal, ma o dos fariseus: fica como centro a Palavra e a Lei. Assim, o mundo que Mt tem diante dos olhos quando escreve o evangelho, é o mundo que vai transferir para o tempo em que Jesus viveu, onde aparece esta clara ruptura. Trata-se, portanto, dum momento de encruzilhada. Então o evangelho de Mt apresenta-se como uma apologia de Jesus e dos cristãos. Isso não está de forma tão clara nos outros sinópticos como o está em Mt: questão de quem é o verdadeiro Israel. Não é por acaso que a palavra ekklesia apareça três vezes em Mt, e não aparece de todo em Mc e Lc. Há uma insistência manifesta na questão eclesiológica.
Quanto à Genealogia de Mt, apresenta-se como um verdadeiro tratado teológico onde, numa forma quase homeliética, procura-se apresentar Jesus como o Filho de David. Se Mt a coloca logo no princípio, Lc por exemplo adia-a ao terceiro capítulo. Em Lc temos a preocupação de apresentar Jesus como o Filho de Adão, e portanto ligado á história da humanidade, onde aparecem todos os tipos de homens, bons e maus (universalidade da salvação). Em Mt Jesus não é o Filho de Adão, mas de David. Em 1,1-17, temos a subdivisão da Genealogia de Jesus em três grupos de catorze gerações: de Abraão a David , catorze gerações; de David à deportação na Babilónia, catorze gerações; da deportação na Babilónia a Cristo, catorze gerações. No hebraico, os números correspondem às letras do alfabeto, pelo que o nome hebraico David (דוד) corresponde a ד 4 + ו 6 + ד 4 = 14. Isso significa que Jesus é três vezes David. Ainda na Genealogia aparecem nomes de cinco mulheres (Tamar, Raab, Rute, mulher de Hurias, Maria) que têm em comum o facto de serem ilegítimas e que tiveram partos extraordinários no sentido de não serem segundo a Lei. Assim, cada um destes nascimentos vai tornar menos inquietante o nascimento de Jesus de Maria. Mas Jesus é filho de David por José: importante do ponto de vista legal da paternidade (Lc apresenta-o do ponto de vista de Maria).
O evangelho da infância de Mt também se caracteriza pela sincrese (comparação), onde emergem Jesus e Herodes. Assim como no tempo de Jesus, Herodes mandou matar todos os filhos primogénitos, Mt compara-o com o tempo de Saul (= Herodes) e de David (= Jesus) ressaltando, dessa forma, um contexto de rivalidade. O mesmo diga-se em relação aos Magos, que vieram para adorá-lo, como cumprimento das promessas messiânicas de Isaías em que as nações pagãs virão adorar o Senhor, ao passo que Herodes quer matá-lo. Fogem então para o Egipto, apresentando um paralelismo com o povo de Israel que será salvo da escravidão do Faraó. Isso que está aqui explícito o será em todo o evangelho, que se apresenta como fundamentação do percurso histórico de Israel. Sendo assim, o evangelho da infância em Mt apresenta-se como um guia proléptico. Neste sentido o fim está no princípio.
Quanto ao discurso missionário do capítulo 10, a diferença dos outros dois evangelhos sinópticos em que encontramos material disperso (apesar de que em Lc apareça a tradição do envio dos setenta e dois, ausente em Mc e Mt), o evangelho de Mt organiza tudo num único discurso. A insistência na vida missionária em Mt tem a ver com as fontes dos ditos do Senhor em que a vida itinerante está fortemente marcada. O judaísmo não tem muito esta dimensão missionária, mas o cristianismo sim, pertence à sua realidade histórica com a formação de comunidades em diversos lugares.
O capítulo 11, que se abre com a pergunta de João Baptista sobre a identidade messiânica de Jesus, e portanto se era verdadeiramente ele o Messias ou se tinham que esperar outro, manifesta a intenção implícita da resposta de Jesus no sentido de olhar para aquilo que se está a realizar na história (os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos ficam limpos, etc.). É desta percepção histórica que podemos descobrir quem é Jesus.
O capítulo 12 representa o conflito com o judaísmo na questão do sábado e se é lícito ou não curar neste dia. Para Jesus, o sábado tem apenas um valor instrumental. Este conflito é de maior importância para os fariseus porque sentiam em Jesus uma ameaça. Outro conflito diz respeito à questão dos laços familiares, que junto com a Lei, eram o fundamento do ser judeu (nasce-se judeu). Mas em Jesus a família deixou de ser um absoluto para ser relativizada, no sentido que vai ganhando um espaço próprio relativamente á Lei e aos pilares fundamentais da vida social e nacional.
O capítulo 13 é o discurso das parábolas, que tem como centro a temática do Reino dos Céus, pré-anunciado desde o começo da vida pública de Jesus como programa do seu messianismo (Mt 4,17).
Entre o discurso em parábolas e o discurso eclesial temos uma ampla secção narrativa onde também aparecem conflitos: se Jesus é o Novo Moisés, o Novo Israel, ao mesmo tempo ele afasta-se deste Israel. Em Nazaré é afastado pelos próprios cidadãos (cap. 13); Jesus recusa-se a dar um sinal àqueles que lho pediam (cap. 16).
Num todo, há um momento de auto revelação de Jesus (duas multiplicações do pão, no cap. 14 e 15; cura da filha mulher cananêia, cap. 15; confissão de Pedro, cap. 16). O episódio da Transfiguração do capítulo 17 representa o cume deste momento de auto revelação. Mas aqui já aparecem os primeiros anúncios da Paixão.
O capítulo 18 é o discurso eclesial. Podemos dividi-lo em três temas principais: Israel, o próprio Jesus (quem é ele?), a Igreja. Aqui Mt fala do que é o discípulo e o discipulado. Mc também é uma “máquina para fazer discípulos”, mas Mt é diferente, porque faz uma reflexão sobre a Igreja na sua estruturação. Isso significa que quando o evangelho foi escrito já havia uma história sobre a Igreja.
Entre o capítulo 18 e 19 temos outro material narrativo: outras parábolas (figueira, dois filhos, vinhateiros homicidas, banquete de núpcias).
O último discurso, dos capítulos 24-25, é o Escatológico. Temos uma linguagem apocalíptica, que vai na ordem da transformação em ordem à substituição de modelos. Tem três partes: uma primeira em que se apela ao reconhecimento do verdadeiro sinal perante os outros falsos; o segundo caracterizado pela dimensão da ignorância relativamente ao dia e à hora e um apelo á vigilância; o terceiro, onde se afirma a grande majestade de Cristo que vem como o Filho do Homem que virá no final dos tempos para julgar as nações. Este discurso escatológico não é somente a projecção daquilo que há-de vir, mas é o presente que ressalta a marca e a particularidade do ser cristão.
No exercício comparativo entre os Sinópticos, percebemos que há zonas muito coincidentes no que diz respeito ao relato da Paixão. Em Mt encontramos porém elementos que lhes são próprios: Jesus é assistido pelo Pai (26,53); Morte de Judas (27,3-10); a mulher de Pilatos (27,19); Pilatos se lava as mãos em sinal de não querer ser responsável pela morte de Jesus (27,24-25); o véu do Templo rasga-se em duas partes e prodígios cósmicos que acompanham a sua morte (27,51-53); a guarda do túmulo (27,62-66). Em Mt vemos como é Jesus que controla a situação, sabe o que lhe vai acontecer, por isso controla os silêncios, as orações, ele é o centro.
A Ressurreição e as aparições do Ressuscitado do capítulo 28, tal como em Mc, são-nos contadas pelo negativo: vazio, ausência. Mas esta ausência transforma-se em presença. A última frase do evangelho manifesta bem aquilo que é a intenção do mesmo: “Eu estarei convosco até ao fim dos tempos”: é o evangelho do Emanuel, do Deus connosco.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Diferencias entre os Evangelhos Sinópticos

Evangelho Segundo São Marcos
O evangelho segundo são Marcos começa com um primeiro grupo constituído pela pregação de João Baptista (Mc 1, 1-8); o baptismo de Jesus (Mc 1, 9-11) e as tentações no deserto (Mc 1, 12-13). Diferencia-se assim de Mateus e Lucas desde um primeiro momento já que apresentam ambos um evangelho da infância ausente em Marcos.
O projecto teológico de Marcos mostra como o messianismo despojado de Jesus resulta decepcionante. Há contudo, um primeiro momento onde a recepção da mensagem – O Reino de Deus – e das acções de Jesus é positiva, principalmente entre os últimos da sociedade; através destes sinais Marcos começa a desvelar o mistério da pessoa de Jesus. (Mc 3, 7-12) Perante a falta de receptividade Jesus consagra-se à formação de um grupo – Mc 3, 13-19 – de discípulos que permaneçam com ele. A confissão de fé de Pedro – Mc 8, 27-30 – representa um momento de viragem a partir do qual todo se encaminha para Jerusalém, sinónimo da Paixão. As tensões aumentam progressivamente – Mc 12, 1-12 – até o acontecimento da Cruz.
Para Marcos Jesus é o messias crucificado. Este crucificado é o Filho de Deus, assim é reconhecido pelo Pai – Mc 1, 11 – e até pelos próprios demónios. (Mc 1, 24) Paradoxalmente não é identificado por aqueles a quem se dirigia de forma directa, mas pelos que estavam fora das promessas de Israel. (Mc, 15, 39) Para os do seu povo este homem resulta escandaloso (Mc 6, 1-6).
O carácter essencialista da narrativa faz com que a descoberta da natureza divina de Jesus seja um processo progressivo que se encerra ao mesmo tempo, entre a quotidianamente e a dimensão sobrenatural da sua pessoa.
Um outro aspecto de singularidade na obra de Marcos é o seu final considerado por muitos como incompleto ou quanto menos abrupto. De facto, o final conserva até o fim o traço enigmático presente ao longo de toda a narrativa. Em Mc 16, 1-8 não encontramos as narrativas pós-ressurreição. Um outro aspecto desconcertante é o facto de as mulheres não dissessem nada do seu encontro com a figura celestial que lhes anuncia a ressurreição de Jesus. O final de Marcos está relacionado com a sua preocupação – transversal a todo o texto – em relação ao segredo messiânico que revela por contradição no silêncio daquilo que não é dito manifestamente a realidade sobre a pessoa de Jesus.

Evangelho Segundo São Mateus
O plano do evangelho de São Mateus é muito mais elaborado – embora contenha também aspectos como os que anteriormente sublinhamos em Marcos. Já em termos de estruturação nota-se uma intencionalidade da parte do autor ao organizar todo o seu material em cinco grandes discursos. Este Corpus está precedido pelo chamado Evangelho da infância e atinge o seu clímax na narrativa da Paixão e nos relatos dos acontecimentos pós-pascais. Todo o conjunto denota uma elaboração sistemática por parte do autor, que visa um determinado projecto teológico.
O evangelho de Mateus foi escrito no contexto do judaísmo sinagogal e da Torá, contemporâneo da jovem Igreja e altamente contestatário à nova religião que se atribui para si um carácter universalista. Mateus transfere habilmente este confronto para os tempos de Jesus – isto não implica que o Jesus de Mateus seja uma espécie de criação híbrida, sem historicidade – evidenciando que a problemática da distinção significava sobretudo a subsistência do cristianismo. Contudo – e aqui vemos traços claros de historicidade da pessoa de Jesus – Mateus não percebe Jesus sem o judaísmo. Isto significa que o Jesus de Mateus é antes de mais um judeu. No entanto, Jesus é sumamente crítico face a um judaísmo desencarnado, e exterioricista.
Neste contexto Mateus mostra na pessoa de Jesus o cumprimento das Escrituras, das promessas feitas a Israel. De facto, momentos clave como os sinais que manifestam a condição messiânica de Jesus são colocados em referência às Sagradas Escrituras. Assim por exemplo: «Ao saber isto, Jesus retirou-se daí. Muitos lhe seguiram e os corou a todos. Mandou-lhes energicamente não dizer nada a ninguém; para se cumprisse o oráculo do profeta Isaías: Eis o meu Servo a quem elegi, meu Amado, em quem minha alma se encontra a sua complacência…» (Mt 12, 15ss) Não deixa de ser um facto significativo que seja Mateus o evangelista que mais cita as Sagradas Escrituras.
A cristologia de Mateus é também muito mais trabalhada. Dois exemplos dos títulos cristológicos do evangelho são: Jesus como o Mestre, aquele que ensina, possuidor de uma singularíssima sabedoria. Um outro título estimado para Mateus é Messias, contudo, é necessário sublinhar que também Lucas não identifica o messianismo de Jesus com um messianismo glorioso de teor político, mas sobretudo com um messianismo de libertação, de salvação, principalmente dos últimos da terra que introduz a nova realidade do Reino de Deus.
Seja pelos motivos que salientamos aqui – e por muitos outros que não são referidos – o evangelho de Mateus como obra de conjunto foi desde sempre considerado o evangelho, sem dúvida trata-se de uma obra completíssima que evidencia a grandeza do seu autor, mas sobretudo a profunda percepção do mistério de Jesus, rasgo que se manifesta em todos os sinópticos de diversas formas.

Evangelho Segundo São Lucas
Um primeiro rasgo característico do texto lucano é o seu prólogo – Lc 1, 1-4 – que dá à obra uma originalidade singular. O evangelho constitui o primeiro volume da sua obra que consta também dos Actos dos Apóstolos. Ora, a originalidade à qual nos referimos não deva ser entendida em termos de materiais – o seu plano segue Marcos embora transponha algumas narrativas e omita outras – mas em termos de disposição.
Há em Lucas um aspecto do seu projecto teológico que é particular: Jerusalém é o lugar – Cidade Santa – onde se deve cumprir a salvação. O versículo trinta e um do capítulo nono – entre outros – salienta esta ideia ao referir no contexto da transfiguração que Moisés e Elias falavam com Jesus daquilo que sucederia em Jerusalém. É na Cidade Santa onde começa o evangelho – Lc 1, 5ss – e é aí onde concluirá com as narrativas pós-pascais – Lc 24, 33-35 – e por último é daí que sairá a evangelização para todas as nações – Lc 24, 47 – como mandato evangélico de Jesus.
Uma narrativa única do evangelho lucano é a narrativa dos discípulos de Emaús, que sublinha um dos aspectos particulares do evangelho lucano como um evangelho visual e que ao mesmo tempo condensa os grandes intuitos teológicos transversais a todo o texto tais como: a necessária passagem da visão para a fé que significa uma nova forma de ver os acontecimentos; o conhecimento de Jesus como um conhecimento relacional que implica uma necessária abertura ao seu mistério; Jesus é aquele sobre o que repousa o Espírito de Deus, é o ungido de Deus vindo de Nazaré; Jesus é o profeta poderoso em obras e palavras esperança de Israel, do novo Israel.
Lucas insiste também na necessidade de um abandono absoluto e confiante perante o mistério de Jesus, como condição para o seu seguimento – Lc 14, 25-34 – por outra parte insiste também na necessidade da oração por exemplo Lc 11, 5-8.
Um último elemento a sublinhar é a importância dada por Lucas à dimensão pneumática transversal a toda o macro-relato: «porque será grande perante o Senhor; não beberá vinho nem licor; estará cheio do Espírito Santo já desde o seio materno.» (Luc 1, 15); «Naquele momento encheu-se de gozo no Espírito Santo e disse: “Eu te bendigo ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultastes estas coisas aos sábios e prudentes e as revelastes aos pequeninos…» (Lc, 10, 21); «Vede que enviarei sobre vós a Promessa de meu Pai. Pela vossa parte permanecei na cidade até serdes revestidos do poder do alto.» (Luc 24, 49)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sinopse dos milagres

Os Evangelhos, não sendo escritos de Jesus, ecoam a figura de Jesus e a sua mensagem. Eles não eram possíveis, sem a existência de Jesus. Os Evangelhos procuram guardar a memória da sua pregação. Sem dúvida que os milagres e as curas de Jesus são um ponto alto no seu anúncio. A admiração pelo poder exercido por alguém sobre a natureza

O Milagre é a admiração pelo poder exercido por alguém sobre a natureza. Esse dinamismo é sinal da presença de Deus em Cristo, e mais tarde também nos discípulos. Jesus nunca os realiza para exibição, aliás, repreende quem lho pede deste modo.

Lendo os evangelhos na sua vertente sinóptica notamos que em matéria de milagres, comum aos quatro evangelistas, só temos a multiplicação dos pães (Mt 14, 13-21, Mc 6, 30-44, Lc 9, 10-17 e Jo 6, 1-15). Já os três sinópticos apresentam nove em comum, e quase todos curas, excepto a tempestade acalmada.

Milagres comuns a 3 dos Evangelistas

Mateus

Marcos

Lucas

Cura da sogra de Pedro

Mt 8, 14-15

Mc 1, 29-31

Lc 4, 38-39

Cura de um leproso

Mt 8, 1-4

Mc 1, 40-45

Lc 5, 12-16

Tempestade acalmada

Mt 8, 23-27

Mc 4, 35-41

Lc 8, 22-25

Cura dos possessos de Gadará/Gerasa

Mt 8, 28-34

Mc 5, 1-20

Lc 8, 26-39

Cura de um paralítico

Mt 9, 1-8

Mc 2, 1-12

Lc 5, 17-26

Cura da filha de Jairo e da mulher com a hemorragia

Mt 9, 18-26

Mc 5, 21-43

Lc 8, 40-56

Cura do homem com a mão paralisada

Mt 12, 9-14

Mc 3, 1-6

Lc 6, 6-11

Cura do jovem epiléptico

Mt 17, 14-18

Mc 9, 14-27

Lc 9, 37-43

Cura do(s) cego(s) Jericó

Mt 20, 28-34

Mc 10, 46-52

Lc 18, 35-43

No que se refere aos milagres comuns só a dois evangelhos, Mateus é o que permanece mais comum. Exceptuando o caminhar de Jesus pelas águas os outros três são curas.

Milagres comuns a 2 dos Evangelistas

Mateus

Marcos

Lucas

Cura do servo do Centurião

Mt 8, 5-13

Lc 7, 1-10

Cura de um possesso mudo

Mt 9, 32-34

Lc 11, 14-17

Jesus caminha sobre as águas

Mt 14, 22-33

Mc 6, 45-52

Cura em Genesaré

Mt 14, 34-36

Mc 6, 53-56

Cura da filha da mulher siro-fenícia

Mt 15, 21-28

Mc 7, 24-30

Cura na sinagoga de Cafarnaum

Mc 1, 21-28

Lc 4, 31-37

Resta ver os milagres que aparecem apenas num evangelista. Lucas é o que possui mais relatos. Leva-nos a pensar que é devido ao facto de ele ter feito investigação antes de escrever a sua obra.

Milagres que aparecem apenas num evangelista

Mateus

Marcos

Lucas

Cura de 2 cegos

Mt 9, 27-31

Cura de um surdo-mudo

Mc 7, 31-37

Cura do cego de Betsaida

Mc 8, 22-26

Pesca milagrosa

Lc 5, 1-11

Ressurreição do filho da viúva de Naim

Lc 7, 11-17

Cura da mulher ao sábado

Lc 13, 10-17

Cura do hidrópico

Lc 14, 1-6

Cura dos 10 leprosos

Lc 17, 11-19

Cura da orelha ao soldado

Lc 22, 50-51

Passagens únicas de cada Evangelho

Evangelho de S. Marcos

Passagens únicas:

Mc 3, 20-21 | “Receio dos familiares de Jesus”

Mc 4, 26-29 | “O grão que germina”

Mc 7, 32-37 | “Cura de um surdo-mudo”

Mc 14, 51-52 | “ Prisão de Jesus”

Evangelho de S. Mateus

Passagens únicas:

Mt 2, 1-13 | “Os Magos do Oriente”

Mt 2, 13-15 | “Fuga para o Egipto”

Mt 2, 16- 18 | “Martírio dos Inocentes”

Mt 2, 19 –23 | “Jesus de Nazaré”

Mt 5, 33-37 | “Linguagem e juramentos”

Mt 5, 38-42 | “Lei de talião”

Mt 6, 1-4 | “A esmola”

Mt 6, 5-8 | “A oração”

Mt 6, 16-18 | “O jejum”

Mt 7, 6 | “Responsabilidade da fé”

Mt 11, 28-30 | “O jugo do Senhor”

Mt 12, 15-21 | “Jesus, Servo de Javé”

Mt 13, 24-30 | “O trigo e o joio”

Mt 13, 36-43 | “Explicação da parábola do trigo e do joio”

Mt 13, 44-46 | “O tesouro e a pérola”

Mt 13, 47-52 | “A rede”

Mt 17, 24-27 | “O tributo do templo”

Mt 18, 15-18 | “Correcção fraterna”

Mt 18, 19-20 | “Oração comunitária”

Mt 20, 1-16 | “Os trabalhadores da vinha”

Mt 21, 28-32 | “Os dois filhos”

Mt 25, 31-46 | “Juízo definitivo”

Mt 27, 3-10 | “Remorso de Judas”

Mt 27, 62-66 | “O sepulcro guardado”

Mt 28, 11-15 | “Reacção dos inimigos de Jesus”

Mt 28, 16-20 | “Aparição na Galileia”

Evangelho de S. Lucas

Passagens únicas:

Lc 1, 1-4 | “Prólogo”

Lc 1, 5-25 | “Anúncio do nascimento de João Baptista”

Lc 1, 39-45 | “Visita de Maria a Isabel”

Lc 1, 46-56 | “Cântico de Maria”

Lc 1, 57-66 | “Nascimento e circuncisão de João Baptista”

Lc 1, 67-80 | “Cântico de Zacarias”

Lc 2, 1-20 | “Nascimento de Jesus”

Lc 2, 21-27 | “Circuncisão e apresentação de Jesus no templo”

Lc 2, 28-40 | “Cântico de Simeão”

Lc 2, 41-52 | “Jesus entre os doutores”

Lc 6, 24-26 | “Imprecações”

Lc 7, 11-17 | “Ressurreição do Filho de uma viúva”

Lc 8, 1-3 | “Mulheres servem o Senhor”

Lc 9, 51-56 | “Hospitalidade dos samaritanos”

Lc 10, 17-20 | “Regresso dos discípulos”

Lc 10, 29-37 | “Parábola do bom samaritano”

Lc 10, 38-42 | “Marta e Maria”

Lc 11, 5-8 | “Parábola sobre a oração”

Lc 11, 27-28 | “A verdadeira bem-aventurança”

Lc 12, 13-15 | “Cuidado com a ganância”

Lc 12, 16-21 | “Parábola do rico insensato”

Lc 13, 1-5 | “Exortação ao arrependimento”

Lc 13, 6-9 | “Parábola da figueira estéril”

Lc 13,10-17 | “Mulher curada ao sábado”

Lc 13, 31-33 | “Jesus fala da sua morte”

Lc 14, 7-11 | “Convite à humildade”

Lc 14, 12-14 | “Escolha dos convidados”

Lc 15, 8-10 | “A dracma perdida”

Lc 15, 11-32 | “Os dois filhos”

Lc 16, 1-8 | “Parábola do administrador sagaz”

Lc 16, 9-13 | “Reflexões sobre o dinheiro”

Lc 16, 19-31 | “Parábola do rico e de Lázaro”

Lc 17, 7-10 | “O bom servidor”

Lc 17, 11-19 | “Cura de dez leprosos”

Lc 17, 20-21 | “O Reino de Deus já chegou”

Lc 18, 1-8 | “Parábola do juiz e da viúva”

Lc 18, 9-14 | “O fariseu e o cobrador de impostos”

Lc 19, 1-10 | “Zaqueu, cobrador de impostos”

Lc 19, 41-44 | “Jesus chora sobre Jerusalém”

Lc 21, 37-38 | “Últimos dias de Jesus no templo”

Lc 22, 35-38 | “A hora do combate iminente”

Lc 23, 6-12 | “Jesus perante Herodes”

Lc 24, 13-35 | “No caminho de Emaús”

Lc 24, 44-49 | “Últimas instruções”